La Stratégie

by Alexander Sweden

Tag: Zidane

Porque o cérebro com que nascemos não basta.

A propósito do simulador 360S cumpre-me o seguinte desabafo:

Saber decidir é muito importante no futebol, sempre o foi, e vaticino que continuará a ser, mas esta capacidade torna-se uma mão cheia de nada se deixar de ser fomentada pelo treino, e se este não for aproveitado para incrementar outros parâmetros (físicos e técnicos). Ao contrário do que se apregoa, a velocidade, a força, a agilidade, com verdadeiro impacto desportivo, não são fáceis de alcançar num mundo tão competitivo. Requer esforço, requer deixar de acreditar na história da carochinha que leva muitos jovens a deixar de trabalhar mais do que os outros só porque nessa faixa etária decidem melhor do que os outros. Que caminho perigoso é este de tornar um bom indiciador numa verdade absoluta que garanta o êxito.

Zidane trabalhava mais do que os outros. Ronaldo trabalha mais do que os outros. O treino, e a forma como este é levado ao limite, assume, cada vez mais, uma importância vital porque potencia as capacidades físicas e mentais. O treino pode e deve valorizar ambas as vertentes e só através desta simbiose, o jogador de futebol pode singrar. A capacidade de decisão, sem capacidades técnico-físicas à altura, torna-se ínfima. A técnica e a física, sem o uso do cérebro, torna-se um desastre.

O mundo não é a preto a branco (por mais que nos ajudasse a compreender o fenómeno futebolístico). Na cor cinzenta, cabe a preocupação do treinador em potenciar, através do treino, os aspetos físicos e os aspetos decisórios, já que estes devem andar de mãos dadas. Quando falta um deles, o outro ressente-se, fica órfão e a carreira vai-se.

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A técnica

Desde que me lembro, tenho ouvido supostos especialistas afirmarem que determinado jogador é bom ou é mau tecnicamente. Importa então questionar o que significa “técnica” no contexto futebolístico. Aqui defendemos que é sinónimo de habilidade para lidar com a bola nos mais diversos aspetos de jogo. A técnica pode deste modo dividir-se em 8 sub conceitos:

– Receção: Zidade era um dos expoentes máximos. Se houver boa capacidade neste parâmetro, a bola, venha ela de onde vier e como vier, estará condenada, à partida, a ficar limitada à esfera de atuação do recetor. Dentro deste conceito, podemos distinguir receção pura e simples da receção orientada. A primeira significa dominar a bola sem qualquer outra preocupação senão esta. Dominar esta abordagem permite que a equipa mantenha a posse de bola. A segunda acontece sempre que o jogador não só domina a bola, como, nesse gesto, a prepara para dar-lhe sequência: passe, remate ou apenas a proteção do esférico. Esta última vertente, além de permitir que a equipa mantenha a posse de bola, potencia maior imprevisibilidade quando comparada com o domínio puro e simples.

Neste vídeo (aos 17  segs.) é possível verificar uma extraordinária receção orientada por parte de Zidane.

– Drible: Está relacionado com a capacidade que o jogador, com bola, tem para retirar o adversário da zona de cobertura e não implica obrigatoriamente que seja executada em corrida, já que existem as chamadas fintas de corpo (a lembrar Ronaldinho) que podem revelar boa capacidade de drible, sempre que com estas se consegue enganar o adversário e tirá-lo da zona nevrálgica de ação. Normalmente “técnica” associa-se sobremaneira ao parâmetro “drible”. Discordamos por ser demasiado redutor. Técnica é muito mais do que isso;

– Passe (curto, médio, longo, reto, em arco, tenso, bombeado, etc.): Beckham foi um dos jogadores com mais técnica neste vetor (especialmente no que respeita a passes médios, longos, tensos e em arco).  Um dos aspetos mais importantes do futebol diz respeito ao capítulo do passe, porque é este que liga a equipa, que contribui para determinar estratégias (jogar para ou pelo corredor central, jogar para ou pelo o corredor lateral) e que potencia o êxito dos colegas (os chamados passes de morte, onde Fàbregas é maravilhoso);

– Remate (com os pés ou com a cabeça, de bola corrida ou parada): A forma como se remate (curta, média, longa distância) exige técnica. Ainda que seja um contacto rápido e único com a bola, a técnica (leia-se, a forma como o contacto com a bola, apoiado pela posição corporal, ocorre)  é determinante. Há jogadores, como o Lampard, que revelam um grande índice de aproveitamento em remates de meia distância, quando comparados com a média, porque possuem técnica.

– Tackle (com os pés ou com a cabeça, de bola corrida ou parada): Mesmo no desarme é possível graduar a habilidade no contacto com a bola.  O tackle pode exigir um excelente nível técnico, desde a apuradíssima técnica do corte à flor da relva à Gamarra (que usava o calcanhar para roubar a bola ao oponente e ficar com ela) e porque não, à Marco Aurélio (que utilizava aquela perna longa para “pisar” a bola e resgatá-la ao adversário), aos  cirúrgicos cortes de cabeça que no mesmo gesto não só desviam a bola como a colocam no companheiro de equipa (Pepe é muito bom nesta abordagem). A técnica no tackle potencia não só o sucesso na eliminação da posse de bola do adversário de forma mais eficiente e conclusiva (é diferente cortar a bola para fora, dando a bola novamente no adversário, do que a colocar num dos seus colegas de equipa), como tem um papel importante no despoletar de jogadas no processo de transição momento defensivo/momento ofensivo, dando-se este mais rapidamente (é diferente um corte contra as pernas do adversário que dá lançamento, apenas marcado alguns segundo depois, que um corte que direciona a bola direitinha para o colega da equipa) e de forma mais eficaz (porque quanto mais rápida é a transição mais hipóteses há de apanhar a equipa adversária desorganizada defensivamente).

Neste vídeo é possível constatar que há determinados desarmes que exigem uma considerável capacidade técnica por parte do executante.

– Lançamento: Colocar a bola com as mãos no terreno de jogo, além da técnica rudimentar exigida, revela que esta pode ser importante para transformar simples lançamentos em autênticos cantos. Não basta força, exige conciliação desta com a capacidade da colocar na zona desejada, ou seja, exige técnica. Fazendo alusão aos guarda-redes, quanto maior técnica maior capacidade haverá de colocar a bola com conta peso e medida no colega (quem se pode esquecer as bolas teleguiadas enviadas pelas mãos do gigante Schmeichel quase até à linha do meio campo?).

Se isto não é técnica ao serviço do futebol não sei o que será! (mas a seguir podia ir para o circo que ninguém se importava).

– Guardar a bola: Manter a bola protegida e fora do alcance do adversário exige técnica. Pedro Barbosa foi um dos maiores exemplos da importância desta habilidade. Permite manter a posse de bola e pautar o ritmo de jogo (leia-se, decidir se avanço já para a próxima etapa – passe, drible, remate – ou se aguardo por melhor momento);

– Defesa (Guarda-redes): A forma com os guarda-redes defendem as suas balizas são reveladoras do nível da técnica que ostentam. A melhor técnica será aquela que melhor permitirá ao guardião impedir o golo, independentemente da elegância com que o faz. A elegância é uma técnica, mas não no sentido aqui tratado, não só porque futebol não é bailiado, como não tem repercussão direta na eficácia como a bola é retirada.

Neste vídeo é possível constatar a técnica ao serviço da baliza (1.18 segs. e  2.32 segs.)

Quando alguns afirmam que um jogador é fraco tecnicamente, nem sempre corresponde à verdade. Importa ter noção do conceito, analisar e só então qualificar.  Jardel era fraco no “drible” mas era fortíssimo no “remate” (principalmente, mas não só, de cabeça). Dominguez era ótimo no drible, mas era surreal no passe. Becham era formidável no passe e no remate mas era fraco no tackle (não porque fazia poucos carrinhos mas porque recuperava poucas bolas ao adversário). Todos eles eram bons tecnicamente, desde que analisados pelo parâmetro que mais os favorecia. E todos eles eram fracos tecnicamente, desde que analisados pelo parâmetro que mais os desfavorecia.

Zidane

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