Será Rui Vitória um dos apologistas da máxima “futebol é xadrez”?

by Alexander Sweden

Rui Vitória assenta que nem uma luva no ditado “saiu pior que a encomenda”. Desejava-se uma suave passagem  de testemunho e a “estrutura” contrata uma antítese do atual técnico leonino. Se um adora jogar por dentro do bloco e prefere centros para a área apenas, ou principalmente, quando fazem sentido (leia-se superioridade numérica da equipa que ataca e/ou aproveitamento das faltas de marcação da equipa que defende), o ex-vimaranense abomina o jogo interior (talvez porque dá mais trabalho e exige mais sabedoria para desenvolver) e ama o jogo exterior, quase nos levando a acreditar que as balizas estão colocadas nas bandeirolas de canto. Se as balizas estão no centro do terreno porque razão se induz a equipa a explorar as zonas mais distantes, para depois lançar a bola através de passes longos (leia-se cruzamentos), os quais têm maior percentagem de erro quando comparados com passes mais curtos, para a zona mais nevrálgica do terreno? Para piorar este cenário os eventuais recetores da bola, no modelo de Rui Vitória, encontram-se invariavelmente em desvantagem numérica e bem marcados. Os defesas adoram este modelo de jogo, já que facilita o jogo defensivo e agradecem.

Ao contrário dos puristas, não considero que o jogo exterior, só por si, seja mau. Se eu tiver dois Davids Beckham na equipa a bombear bolas para dois Mários Jardel, e dois Franks Lampard na boca da área para receber a dita segunda bola, é capaz de não ter de me preocupar muito com o jogo interior, o problema é que o Benfica, nem nenhuma equipa no mundo, dispõe de este tipo de jogadores. Mesmo no mundo real continuo a considerar que é possível ser-se adepto do jogo exterior (ainda assim prefiro mil vezes o jogo interior), mas isso obrigaria à construção de um modelo que garanta uma maior presença na área adversária aquando do bombear de bolas e ter jogadores aptos a jogar neste esquema. Não é preciso ser um génio para perceber isso, basta olhar para a matemática e para a lei das probabilidades, ciências que recusam o êxito de um modelo que se traduz em passar a bola, a uma distância de 25 metros, para a cabecinha ou pé de um colega que se encontra em inferioridade numérica e enfrenta uma defesa minimamente rotinada para tirar espaço.

É  quase como um predador desejar engatar uma miúda e ter um “Date Doctor” (a fazer lembrar Will Smith no Hitch) que lhe diz que a melhor forma de “faturar” não é apanhar o caminho mais perto para a discoteca, mas contornar as redondezas e atirar umas cartas de amor pelo ar na vã esperança que o vento leve uma delas ao destino certo e alguém as leia e fique convencida. Nessa noite, para levar alguém para casa, o predador precisaria de muita sorte e os jogadores no modelo do Rui Vitória dependem igualmente dela.

Agora para os adoradores cegos e para os autores do Lateral Esquerdo, Posse de Bola e Domínio Táctico (que já tinham saudades  minhas):

Talvez Rui Vitória seja um dos profetas da nova escola, advogando que a mente e a decisão são o expoente máximo do futebol. Os requisitos físicos seriam relegados para segundo plano (eu considero que físico e mente são indissociáveis e fundamentais). Por outras palavras, quiçá considere que o futebol está mais próximo do xadrez do que outro desporto qualquer (não obstante ser raro ver um jogador com mais de 35 anos produzir o que produziu no passado, mesmo tendo mais experiência, o que lhe dá vantagem frente aos mais jovens) e isso o induza a considerar que o treino talvez seja o menos importante (tal como já afirmou) porque o que importa principalmente é a mente e esta treina-se com discursos, bonecada e palavreado (o que não é verdade, porque mesmo os aspetos decisórios são desenvolvidos nos treinos e com a bola nos pés). A ser verdade talvez fosse útil questionar a razão do seu antecessor, o mais titulado da história do Benfica, revelar uma predileção por jogadores altos (característica física) e não abdicar de Slimani (bastante inferior ao nível da decisão que Montero).

mw-860

Anúncios