La Stratégie

by Alexander Sweden

Tag: Nani

O Engomadinho, o Espalha-brasas, o Que Não Vale Nada e o Puto Cheio de Tesão

Sempre que lido com um jogador pela primeira vez tenho a tendência natural em catalogá-lo ab initio. Não penso que seja um equívoco, desde que depois tenha a flexibilidade de admitir o erro de uma análise mal fundamentada e tratar de inseri-lo na classe correta.

Para ser mais explícito tratarei de explicar o que significa cada uma das categorias de jogadores. Outras existem mas não quero ser demasiado exaustivo. E há também as chamadas zonas cinzentas. Jogadores que não podem ser catalogados numa única categoria porque preenchem elementos caracterizadores de várias. Para aqueles que levam a vida demasiado a sério e pensam que os profissionais não usam expressões coloquiais receio que não apreciem o tom.

O Engomadinho – Trata-se do jogador que usa o cérebro em prol do físico e da técnica. O que decide normalmente bem, que adota invariavelmente as supostas melhores decisões. O porto de abrigo da equipa. No fundo, o Xabi Alonso que qualquer treinador gostaria de ter na sua equipa. São normalmente fáceis de identificar, normalmente têm uma personalidade mais contida, falam para o balneário de uma forma ponderada, sensata e transportam esse modus operandi para o retângulo de jogo. Primeiro pensam, e depois agem. Não tem tesão, mas não precisam, são falinhas mansas. O seu jogo de sedução no retângulo de jogo é outro. Estão num outro paradigma. No Sporting começa a surgir o Adrien Silva (após a reciclagem operada por Marco Silva), o João Mário e o William Carvalho. No Benfica nitidamente o Luisão ou o Enzo Peres. No Porto, ainda não é consensual. Este ano o elemento com estas características ainda não deitou a cabecinha de fora. Rúben Neves, quiçá, mas importa dar tempo ao tempo.

O Espalha-brasas – É o jogador que encanta as plateias, é dotado tecnicamente, sustentado por grandes índices físicos em determinados parâmetros (seja nos gestos contra natura, na velocidade, no pique, na impulsão). Pode nem sempre decidir bem (quando o faz habitualmente passa a ser um grande jogador), por vezes adota soluções supostamente estúpidas que muitas vezes dão resultado e quando assim é são jogadores imensamente úteis. Perante este tipo de jogadores, vale a pena por vezes gritar ao longo da linha “no 1 X 2 esfrangalha os gajos”. No Sporting temos o Nani (um grande jogador porque não obstante ser um espalha-brasas é inteligente com e sem bola) e o Carrillo. No Benfica temos o Sálvio. No Porto, o Quaresma e o Tello.

O Que Não Vale Nada – Tal como o nome diz não é bom em nada. Em alguns aspetos pode ser razoavelmente bom, mas depois apresenta índices miseráveis em muitos dos outros parâmetros. Até pode ter toque de bola, fixa, prende, passa, mas fica-se por ai. Ou, no caso de ser um jogador em posições defensivas, roubar umas quantas bolas ao adversário mas a maior dificuldade é depois sair a jogar e potenciar o roubo num momento ofensivo da equipa. Por uma questão de pudor e respeito, não irei invocar nomes. O que um treinador pode fazer perante um jogador destes no seu plantel? Se for novo pode trabalhá-lo, tentar que adquira outras competências, não vá o problema ter sido no processo formativo e não propriamente no jogador. Se já não for novo, analisar o seu perfil, pode ser um elo estabilizador do balneário, mas mesmo nesta hipótese importa colocar o seu nome na lista de dispensáveis na próxima abertura de mercado. Uma equipa que joga para ganhar não pode ter elementos deste cariz. Se é importante em termos de balneário, volte quando terminar a carreira.

O Puto Cheio de Tesão – Vindo das camadas formativas, normalmente está galvanizado, cheio de tesão pela bola, para demonstrar que tem valor. Muitas vezes isso pode virar-se contra si. Se for um jogador com uma grande capacidade técnica possivelmente quererá levar a bola para casa em pleno terreno de jogo. Ai entra a capacidade pedagógica do treinador. Aproveitar a tesão, mas vocacionando-a para a evolução, para o uso do cérebro antes de ser comportar com um velho porco num colégio de virgens impolutas. Se já tiver mais vocação para pensar o jogo, recordar-lhe que Roma e Pavia não se fizeram num dia. Que em cada lance não tem de descobrir a pólvora. Que jogar simples, lateralizar o jogo, é muitas vezes a suposta melhor decisão (apesar de Freitas Lobo discordar porque é um poeta e não entende o futebol). Adoraria ter acompanhado in loco o surgimento do Toni Kross nos seus primeiros tempos de profissional. Tanta aptidão num só corpo faz confusão, onde a decisão, a capacidade técnica e física decidiram agregar-se na mesma pessoa. A tesão levou-o inicialmente a ocupar terrenos mais avançados, com a maturidade recuou, porque o tipo de boas decisões que adota são mais determinantes em terrenos mais recuados. É um jogador brilhante, mas perigoso, porque parece fácil tudo aquilo que faz, mas é tão difícil. Ele não tem o cérebro de um rapaz de 24 anos, ele transporta consigo a maturidade de um homem de 80 anos.

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Entrevista a Jorge Jesus

“Depois, o Nani veio dar uma grande qualidade à equipa do Sporting, é um excelente jogador, de nível muito alto. Há bons e grandes jogadores e o Nani é um grande jogador. Um bom jogador é aquele que joga bem e o grande é aquele que joga bem e coloca os outros a jogar bem, que é o caso do Nani”, Jorge Jesus in Record.

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Retiro uma peça da entrevista de Jorge Jesus, que depois de louvada pelo blog Lateral Esquerdo, me trouxe alguma comichão aos ouvidos. Não ponho em causa o facto do Nani ser um grande jogador. Para mim é consensual, mas aquilo com que eu não concordo plenamente é o facto do grande jogador ser aquele que coloca os outros a jogar bem. Nem sempre acontece, nem mesmo com Maradona.

Compreendo a ideia de Jorge Jesus. Um grande jogador tem a capacidade de criar lances que potenciam o sucesso dos outros. Quem jogou futebol sabe que é distinto receber uma bola aos trambolhões do que em conta, peso e medida. Que no primeiro caso a possibilidade de darmos seguimento à jogada com qualidade é incomparavelmente superior à do segundo caso. Ter um grande jogador na equipa significa que eu, enquanto jogador “normal”, vou ter acesso a participar em jogadas, que nunca na vida me confrontaria e que nunca idealizei que pudessem ser postas em prática. Um grande jogador pensa e executa muito melhor do que os outros. E é nesta dupla abordagem que o jogador banal poderá “começar a jogar bem”, no fundo, a executar melhor (porque é lhe dada a possibilidade da receber ou de colocar a bola em melhores condições) e a pensar melhor porque passa a fazer parte da linha de pensamento, a dar sequência a algo, que ele, só por si, nunca teria genialidade para criar.

No entanto, ficarmos apenas nesta tónica induz em erro. Está incompleta. É falsa. Há sempre um risco de um jogador banal se banalizar ainda mais quando confrontado com um grande jogador. Perante o belo, o feio fica mais feio ainda. Se tenho tijolos nos pés, perante alguém que os tenha de porcelana, vai agudizar o meu estado miserável. Não será difícil de encontrar situações em que após uma boa jogada de um grande jogador, vem a ovelhinha negra estragar tudo. A ovelhinha deixou de passar despercebida. Anteriormente escondida na boçalidade geral, digna é agora de holofotes pelos piores motivos. Perante a genialidade do colega a sua mediocridade é realçada. Dito por outras palavras, um grande jogador nem sempre coloca os outros a jogar bem, muitas vezes evidencia o quanto aqueles jogam mal.

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