Rescaldo de um jogo fantástico

by Alexander Sweden

O eletrizante jogo entre Barcelona e Bayern serviu para muito mais do que manifestar o génio de Messi,  mesmo que nos dê jeito para abafar prognósticos estéreis. Assim como o futebol amador provoca, por vezes, mazelas impossíveis de ultrapassar, impedindo a ascensão ao futebol profissional, este jogo serviu para desmistificar a recente paixão adolescente pela posse de bola e demonstrar as vulnerabilidades do Guardiola, realidade não alheia ao facto de sempre ter tido tudo de mão beijada. Viciado em treinar as melhores equipas, os melhores jogadores, fê-lo baixar a guardar, e pior do que isso, nunca consegui criar anticorpos que apenas as dores de crescimento permitem adquirir. Nunca andou na lama, e o ser humano, para se aperfeiçoar, precisa de catarse. Quiçá, seja agora, o momento oportuno.

Jogar obcecado pela posse da bola é bonito, permite construir interessantes desenhos disseminados pela blogosfera ou bonitas quadras para os editores de alguns periódicos que não deviam ser chamados de jornais (porque não fazem jornalismo), mas, só por si, não ganha jogos. A posse de bola não é um fim em si mesma. Deve servir interesses mais importantes, a vitória. Sempre que aquela não sirva o interesse último, deve ser deixada órfã, adotando-se um estilo mais adequado ao adversário e ao local onde se situa o terreno de jogo. Jogar em Barcelona, como se jogasse na Alemanha, revela insensatez, o que se compreende pela falta de anticorpos que Guardiola nunca teve oportunidade de criar. A estratégia montada para qualquer equipa termina sempre por estar submissa à estratégia e ao potencial da equipa adversária. Guardiola foi autista, não manifestou um plano B, porque nunca foi obrigado a ter um plano B. Habituado a reinar contra tudo e todos desde cedo, a impor a lei do mais forte, ainda está a tempo de perceber, durante a recente noite passada em branco, fruto das insónias que o orgulho ferido costuma provocar nos humanos, que precisa rapidamente de descer à terra e de se “Mourinhar”. Necessita urgentemente de se prender a objetivos mais terrenos (ganhar) e menos em modelos celestes pré-determinados, sustentados muitas vezes na estética e menos na eficácia. Nem sempre é possível conciliar as duas, e tendo que se optar, um profissional só pode escolher a segunda.

Tratando-se de um génio, mais ainda assim cheio de defeitos, creio que Guardiola saberá crescer, de emendar a mão e continuar a ganhar. As fantásticas conjunturas com que se foi deparando ao longo da carreira, e que tão sabiamente soube procurar, não lhe permitiram ter jogo de cintura, não lhe deram a conhecer que o jogo de posse é uma mão cheia de nada se não conjugada com outros fatores igualmente importantes. Ter mais posse de bola, mas não rematar à baliza adversária é um ultraje; Permitir que o seu guardião ouse espicaçar o adversário, revela que há muito está desconectado do mundo real; ou afirmar, todo contente, que Messi não pode ser marcado e nada fazer para impedir essa meia verdade, com uma estratégia distinta, adaptada ao caso em concreto, é um tiro no pé e soa a uma arrogância que merece ser bem paga. Hoje fez-se justiça.

Tudo isto serviu também para manifestar que Guardiola não passa de um humano. Agora, compete-lhe descer das nuvens, provar o fel da crosta terrestre, assumir a postura terráquea, a única que lhe cai na perfeição, e deixar a estratosfera para um único ser que nela pode habitar: Messi, quem mais?

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