La Stratégie

by Alexander Sweden

Tag: João Mário

Recordando o blog O Artista do Dia, que salienta alguns dados estatísticos do jogo de ontem do Sporting versus Schalke 04, salta à vista o desempenho do Sarr. Ontem tinha escrito, sem acesso a quaisquer dados, que o jovem francés não tem pé cego. Os números hoje  vêm manifestar que nas 33 tentativas de passe, não falhou nenhum. Vale o que vale, mas a estatística é útil para nos manter conectados à realidade, para consolidar ou ajudar a deitar por terra algumas ideias prévias que adquirimos ao obervar um jogo de futebol.

Relativamente ao alto índice  do João Mário ao nível do passe (33 passes certos em 35 tentativas), não é nada de novo. Não só tudo faz sentido naquela cabeça, como têm índices técnicos que não o deixam ficar mal na fotografia. Os passes de trinta metros, de um lado ao outro do campo, com que nos tem brindado não são muito comuns no futebol português, mas são extremamente úteis porque evidenciam o chamado efeito harmónio da defesa contrária (o ajustamento que as equipas fazem em termos da ocupação da largura do campo de acordo com o local onde está a bola); como o esférico é mais rápido que a readaptação do posicionamento dos jogadores à nova realidade (o mais recente local onde aquele se encontra), permite, a quem recebe o passe, decidir e executar num ambiente menos stressante, o que fomenta mais probabilidade de êxito na decisão e na respetiva execução.

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O Engomadinho, o Espalha-brasas, o Que Não Vale Nada e o Puto Cheio de Tesão

Sempre que lido com um jogador pela primeira vez tenho a tendência natural em catalogá-lo ab initio. Não penso que seja um equívoco, desde que depois tenha a flexibilidade de admitir o erro de uma análise mal fundamentada e tratar de inseri-lo na classe correta.

Para ser mais explícito tratarei de explicar o que significa cada uma das categorias de jogadores. Outras existem mas não quero ser demasiado exaustivo. E há também as chamadas zonas cinzentas. Jogadores que não podem ser catalogados numa única categoria porque preenchem elementos caracterizadores de várias. Para aqueles que levam a vida demasiado a sério e pensam que os profissionais não usam expressões coloquiais receio que não apreciem o tom.

O Engomadinho – Trata-se do jogador que usa o cérebro em prol do físico e da técnica. O que decide normalmente bem, que adota invariavelmente as supostas melhores decisões. O porto de abrigo da equipa. No fundo, o Xabi Alonso que qualquer treinador gostaria de ter na sua equipa. São normalmente fáceis de identificar, normalmente têm uma personalidade mais contida, falam para o balneário de uma forma ponderada, sensata e transportam esse modus operandi para o retângulo de jogo. Primeiro pensam, e depois agem. Não tem tesão, mas não precisam, são falinhas mansas. O seu jogo de sedução no retângulo de jogo é outro. Estão num outro paradigma. No Sporting começa a surgir o Adrien Silva (após a reciclagem operada por Marco Silva), o João Mário e o William Carvalho. No Benfica nitidamente o Luisão ou o Enzo Peres. No Porto, ainda não é consensual. Este ano o elemento com estas características ainda não deitou a cabecinha de fora. Rúben Neves, quiçá, mas importa dar tempo ao tempo.

O Espalha-brasas – É o jogador que encanta as plateias, é dotado tecnicamente, sustentado por grandes índices físicos em determinados parâmetros (seja nos gestos contra natura, na velocidade, no pique, na impulsão). Pode nem sempre decidir bem (quando o faz habitualmente passa a ser um grande jogador), por vezes adota soluções supostamente estúpidas que muitas vezes dão resultado e quando assim é são jogadores imensamente úteis. Perante este tipo de jogadores, vale a pena por vezes gritar ao longo da linha “no 1 X 2 esfrangalha os gajos”. No Sporting temos o Nani (um grande jogador porque não obstante ser um espalha-brasas é inteligente com e sem bola) e o Carrillo. No Benfica temos o Sálvio. No Porto, o Quaresma e o Tello.

O Que Não Vale Nada – Tal como o nome diz não é bom em nada. Em alguns aspetos pode ser razoavelmente bom, mas depois apresenta índices miseráveis em muitos dos outros parâmetros. Até pode ter toque de bola, fixa, prende, passa, mas fica-se por ai. Ou, no caso de ser um jogador em posições defensivas, roubar umas quantas bolas ao adversário mas a maior dificuldade é depois sair a jogar e potenciar o roubo num momento ofensivo da equipa. Por uma questão de pudor e respeito, não irei invocar nomes. O que um treinador pode fazer perante um jogador destes no seu plantel? Se for novo pode trabalhá-lo, tentar que adquira outras competências, não vá o problema ter sido no processo formativo e não propriamente no jogador. Se já não for novo, analisar o seu perfil, pode ser um elo estabilizador do balneário, mas mesmo nesta hipótese importa colocar o seu nome na lista de dispensáveis na próxima abertura de mercado. Uma equipa que joga para ganhar não pode ter elementos deste cariz. Se é importante em termos de balneário, volte quando terminar a carreira.

O Puto Cheio de Tesão – Vindo das camadas formativas, normalmente está galvanizado, cheio de tesão pela bola, para demonstrar que tem valor. Muitas vezes isso pode virar-se contra si. Se for um jogador com uma grande capacidade técnica possivelmente quererá levar a bola para casa em pleno terreno de jogo. Ai entra a capacidade pedagógica do treinador. Aproveitar a tesão, mas vocacionando-a para a evolução, para o uso do cérebro antes de ser comportar com um velho porco num colégio de virgens impolutas. Se já tiver mais vocação para pensar o jogo, recordar-lhe que Roma e Pavia não se fizeram num dia. Que em cada lance não tem de descobrir a pólvora. Que jogar simples, lateralizar o jogo, é muitas vezes a suposta melhor decisão (apesar de Freitas Lobo discordar porque é um poeta e não entende o futebol). Adoraria ter acompanhado in loco o surgimento do Toni Kross nos seus primeiros tempos de profissional. Tanta aptidão num só corpo faz confusão, onde a decisão, a capacidade técnica e física decidiram agregar-se na mesma pessoa. A tesão levou-o inicialmente a ocupar terrenos mais avançados, com a maturidade recuou, porque o tipo de boas decisões que adota são mais determinantes em terrenos mais recuados. É um jogador brilhante, mas perigoso, porque parece fácil tudo aquilo que faz, mas é tão difícil. Ele não tem o cérebro de um rapaz de 24 anos, ele transporta consigo a maturidade de um homem de 80 anos.

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