La Stratégie

by Alexander Sweden

Categoria: Análise de jogo

Será Rui Vitória um dos apologistas da máxima “futebol é xadrez”?

Rui Vitória assenta que nem uma luva no ditado “saiu pior que a encomenda”. Desejava-se uma suave passagem  de testemunho e a “estrutura” contrata uma antítese do atual técnico leonino. Se um adora jogar por dentro do bloco e prefere centros para a área apenas, ou principalmente, quando fazem sentido (leia-se superioridade numérica da equipa que ataca e/ou aproveitamento das faltas de marcação da equipa que defende), o ex-vimaranense abomina o jogo interior (talvez porque dá mais trabalho e exige mais sabedoria para desenvolver) e ama o jogo exterior, quase nos levando a acreditar que as balizas estão colocadas nas bandeirolas de canto. Se as balizas estão no centro do terreno porque razão se induz a equipa a explorar as zonas mais distantes, para depois lançar a bola através de passes longos (leia-se cruzamentos), os quais têm maior percentagem de erro quando comparados com passes mais curtos, para a zona mais nevrálgica do terreno? Para piorar este cenário os eventuais recetores da bola, no modelo de Rui Vitória, encontram-se invariavelmente em desvantagem numérica e bem marcados. Os defesas adoram este modelo de jogo, já que facilita o jogo defensivo e agradecem.

Ao contrário dos puristas, não considero que o jogo exterior, só por si, seja mau. Se eu tiver dois Davids Beckham na equipa a bombear bolas para dois Mários Jardel, e dois Franks Lampard na boca da área para receber a dita segunda bola, é capaz de não ter de me preocupar muito com o jogo interior, o problema é que o Benfica, nem nenhuma equipa no mundo, dispõe de este tipo de jogadores. Mesmo no mundo real continuo a considerar que é possível ser-se adepto do jogo exterior (ainda assim prefiro mil vezes o jogo interior), mas isso obrigaria à construção de um modelo que garanta uma maior presença na área adversária aquando do bombear de bolas e ter jogadores aptos a jogar neste esquema. Não é preciso ser um génio para perceber isso, basta olhar para a matemática e para a lei das probabilidades, ciências que recusam o êxito de um modelo que se traduz em passar a bola, a uma distância de 25 metros, para a cabecinha ou pé de um colega que se encontra em inferioridade numérica e enfrenta uma defesa minimamente rotinada para tirar espaço.

É  quase como um predador desejar engatar uma miúda e ter um “Date Doctor” (a fazer lembrar Will Smith no Hitch) que lhe diz que a melhor forma de “faturar” não é apanhar o caminho mais perto para a discoteca, mas contornar as redondezas e atirar umas cartas de amor pelo ar na vã esperança que o vento leve uma delas ao destino certo e alguém as leia e fique convencida. Nessa noite, para levar alguém para casa, o predador precisaria de muita sorte e os jogadores no modelo do Rui Vitória dependem igualmente dela.

Agora para os adoradores cegos e para os autores do Lateral Esquerdo, Posse de Bola e Domínio Táctico (que já tinham saudades  minhas):

Talvez Rui Vitória seja um dos profetas da nova escola, advogando que a mente e a decisão são o expoente máximo do futebol. Os requisitos físicos seriam relegados para segundo plano (eu considero que físico e mente são indissociáveis e fundamentais). Por outras palavras, quiçá considere que o futebol está mais próximo do xadrez do que outro desporto qualquer (não obstante ser raro ver um jogador com mais de 35 anos produzir o que produziu no passado, mesmo tendo mais experiência, o que lhe dá vantagem frente aos mais jovens) e isso o induza a considerar que o treino talvez seja o menos importante (tal como já afirmou) porque o que importa principalmente é a mente e esta treina-se com discursos, bonecada e palavreado (o que não é verdade, porque mesmo os aspetos decisórios são desenvolvidos nos treinos e com a bola nos pés). A ser verdade talvez fosse útil questionar a razão do seu antecessor, o mais titulado da história do Benfica, revelar uma predileção por jogadores altos (característica física) e não abdicar de Slimani (bastante inferior ao nível da decisão que Montero).

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Messi versus Barcelona

Palavras de Fabio Capello:

«A conquista do título demonstra a inteligência de Mourinho. Pode até ter estacionado o autocarro em algumas ocasiões, mas venceu. Recordo-me sempre da famosa frase de Giampiero Boniperti: “Ganhar é a única coisa realmente importante”. Mourinho ganha títulos, outros discutem filosofia».

Basicamente é isto que tem proliferado pela internet e pela imprensa, filosofia, vã filosofia. Realidade mais evidente sempre que se fala de Pep Guardiola. Se há treinador que goza de boa imprensa e de boa opinião especializada, independente do que faça, é o catalão e compreende-se porquê: Durante alguns anos de ouro colocou em prática o que muitos filósofos defendem, tornando-se uma espécie de guru sagrado. O problema é que o gizado pelo treinador amado resulta em determinados paradigmas, escolhidos a dedo e dentro de conjunturas incrivelmente agradáveis. Para os acérrimos defensores, o futebol de Pep é plausível de ser concretizado em qualquer equipa, em qualquer campeonato, em qualquer panorama e garante sucesso. Sempre. A realidade tem vindo a encarregar-se de provar o contrário, estando à vista um imenso desafio para o referido treinador: Adaptar-se.

Alguns paladinos, quase roçando o autismo, agarram-se a tudo o que podem para justificar os momentos difíceis de Guardiola. A derrota contra o Barcelona é disso prova. Não se podendo colocar em causa Sua Majestade, importava arranjar rapidamente um bode expiatória que mantivesse imaculado o estilo de jogo da Realeza. Desta vez foi Messi, à próxima será outra coisa qualquer. Li que foi este quem ganhou o jogo. Li ainda que quem não entende isto, não há nada que se possa fazer por pobre alma. Tudo isto me parece incrivelmente arrogante e desonesto do ponto de vista intelectual, tal como o será quando se defende que a estratégia de jogo do Bayern foi acertada, mas que contra Messi a melhor estratégia não resulta!

Perante estes argumentos, quem não conhecesse o fenómeno argentino, julgaria que Messi, quando está em grande forma, ganha sempre. Que o Barcelona, neste contexto, ganha sempre. Que são ficção pura os jogos em que Messi, em grande forma, não impediu os Blaugrana de serem eliminados da Champions, já que o argentino é impossível de travar.

Esta argumentação é igualmente perversa porque leva a crer que quem ganhou o jogo foi Messi e não a equipa. É menosprezar o conjunto e louvar o indivíduo. Por outras palavras, é produzir uma máxima antagónica a tudo aquilo que representa o futebol: um desporto de equipa. Ninguém ganha nada sozinho (nem Maradona no Nápoles). O Barcelona ganhou o jogo porque teve uma melhor estratégia, porque a equipa defendeu bem (se não o tivesse feito e ainda assim os golos de Messi tivessem acontecido, não seriam suficientes para garantir um bom resultado), e porque potenciou, pela forma como jogou em prol do bem comum, a genialidade do pequeno grande jogador.

Transformar a vitória do Barcelona na vitória de Messi é não gostar nem entender o que é o futebol. É ver apenas o futebol numa perspetiva esporádica (esquecendo todos os outros momentos de jogo) e individual (esquecendo o conjunto), quando o futebol deve ser analisado como uma interação de fenómenos, onde todos os jogadores dão o seu contributo e contribuem de alguma forma para o sucesso ou insucesso da equipa. Todos ganham, todos perdem, todos estão no mesmo barco e não adianta negar o inegável só para defendermos o indefensável. Não foi Messi que ganhou o jogo, foi a equipa.

Guardiola está refém do seu modelo, o qual precisa urgentemente de alojar os pés na terra e ajustar-se à realidade. O Barcelona de Pep Guardiola foi um sonho idílico que dificilmente se voltará a repetir nos próximos anos. Foi um regime de exceção que funcionou muito bem com um modelo de jogo também ele de exceção. Caindo o regime, deve com ele cair também o modelo que lhe dava sustento. Não significa passar uma esponja e começar tudo de novo, basta introduzir mais calculismo e menos filosofia, principalmente daquela que os filósofos gostam, mas que, tal com a argumentação cega usada para a defender, corre sérios riscos de se tornar cada vez mais infrutífera. Guardiola pode ganhar em Munique? Seria a melhor coisa que poderia acontecer, este ano, a nível mundial. Bombástico. Se acontecer cá estarei para analisar o jogo e dar os parabéns a quem realmente o merece: não a um jogador, seria um erro crasso, mas à equipa.

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Rescaldo de um jogo fantástico

O eletrizante jogo entre Barcelona e Bayern serviu para muito mais do que manifestar o génio de Messi,  mesmo que nos dê jeito para abafar prognósticos estéreis. Assim como o futebol amador provoca, por vezes, mazelas impossíveis de ultrapassar, impedindo a ascensão ao futebol profissional, este jogo serviu para desmistificar a recente paixão adolescente pela posse de bola e demonstrar as vulnerabilidades do Guardiola, realidade não alheia ao facto de sempre ter tido tudo de mão beijada. Viciado em treinar as melhores equipas, os melhores jogadores, fê-lo baixar a guardar, e pior do que isso, nunca consegui criar anticorpos que apenas as dores de crescimento permitem adquirir. Nunca andou na lama, e o ser humano, para se aperfeiçoar, precisa de catarse. Quiçá, seja agora, o momento oportuno.

Jogar obcecado pela posse da bola é bonito, permite construir interessantes desenhos disseminados pela blogosfera ou bonitas quadras para os editores de alguns periódicos que não deviam ser chamados de jornais (porque não fazem jornalismo), mas, só por si, não ganha jogos. A posse de bola não é um fim em si mesma. Deve servir interesses mais importantes, a vitória. Sempre que aquela não sirva o interesse último, deve ser deixada órfã, adotando-se um estilo mais adequado ao adversário e ao local onde se situa o terreno de jogo. Jogar em Barcelona, como se jogasse na Alemanha, revela insensatez, o que se compreende pela falta de anticorpos que Guardiola nunca teve oportunidade de criar. A estratégia montada para qualquer equipa termina sempre por estar submissa à estratégia e ao potencial da equipa adversária. Guardiola foi autista, não manifestou um plano B, porque nunca foi obrigado a ter um plano B. Habituado a reinar contra tudo e todos desde cedo, a impor a lei do mais forte, ainda está a tempo de perceber, durante a recente noite passada em branco, fruto das insónias que o orgulho ferido costuma provocar nos humanos, que precisa rapidamente de descer à terra e de se “Mourinhar”. Necessita urgentemente de se prender a objetivos mais terrenos (ganhar) e menos em modelos celestes pré-determinados, sustentados muitas vezes na estética e menos na eficácia. Nem sempre é possível conciliar as duas, e tendo que se optar, um profissional só pode escolher a segunda.

Tratando-se de um génio, mais ainda assim cheio de defeitos, creio que Guardiola saberá crescer, de emendar a mão e continuar a ganhar. As fantásticas conjunturas com que se foi deparando ao longo da carreira, e que tão sabiamente soube procurar, não lhe permitiram ter jogo de cintura, não lhe deram a conhecer que o jogo de posse é uma mão cheia de nada se não conjugada com outros fatores igualmente importantes. Ter mais posse de bola, mas não rematar à baliza adversária é um ultraje; Permitir que o seu guardião ouse espicaçar o adversário, revela que há muito está desconectado do mundo real; ou afirmar, todo contente, que Messi não pode ser marcado e nada fazer para impedir essa meia verdade, com uma estratégia distinta, adaptada ao caso em concreto, é um tiro no pé e soa a uma arrogância que merece ser bem paga. Hoje fez-se justiça.

Tudo isto serviu também para manifestar que Guardiola não passa de um humano. Agora, compete-lhe descer das nuvens, provar o fel da crosta terrestre, assumir a postura terráquea, a única que lhe cai na perfeição, e deixar a estratosfera para um único ser que nela pode habitar: Messi, quem mais?

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Voltando ainda ao tema do Mané.

No que respeita ao passar a bola para o companheiro que se encontra supostamente melhor colocado para finalizar, tenho observado na blogosfera sempre a mesma tónica, a qual passa por considerar que qualquer jogador em lances semelhantes ao do Mané, independentemente do contexto (mesmo que tenha havido um lance exatamente igual há dois minutos atrás com os mesmos protagonistas e com o recetor da bola a mandá-la para as couves)  tem que passar a bola para o colega, seja ele quem for. E não há a mínima hipótese de pensarmos um pouco sobre as poucas vezes em que isso possa não ser verdade nem partilhar alguns pensamentos sobre o tema. Não, temos de assumir uma posição: ou uma coisa, ou outra. Ou preto, ou branco. Não há espaço para o cinzento.

Confunde-se capacidade de passe do Paulo Sousa (e porque não os méritos enquanto treinador) com a capacidade de remate. Parece que não é possível ser-se bom no passe e terrível no remate. E o contrário também vale? Se tenho grande capacidade de remate significa que sou fabuloso ao nível do passe? O Geraldão ou o Heitor do Maritimo deviam jogar a número 10  ou número 6 porque seguramente também eram igualmente brilhantes no passe? Ou a teoria só vale quando dá jeito? Não creio.

Infelizmente, e pode ser falha minha, parece-me que os apologistas do teoria absoluta (porque não admite exceção), nunca se pronunciam sobre as hipóteses do passe falhar. Parece que isso não existe. Não é possível (porque sendo, faria sentido referir isso nas análises). Lá porque fazemos desenhos a traçar o passe que devia ser feito, não se pondera o estado do terreno, os riscos do jogador estar em fora de jogo, ou estar em linha e o juiz auxiliar julgar mal, da bola ser enviada muito para a frente ou muito para trás, demasiado devagar, ou demasiado depressa. Não, qualquer portador da bola que se enquadre numa destas situações assume a perfeição (mas nunca atingirá esse nível se optar pela jogada individual, porque aí passa a ser um calhau com olhos) e portanto na ponderação entre seguir a jogada individual e a jogada coletiva, colocamos o peso todo no lado da balança que gostamos mais. Só vantagens, zero riscos. Qualquer análise feita deste modo não me parece honesta.

Outro aspeto importante que quero realçar é que a referida teoria não introduz nada de novo. Qualquer puto, que já tenha jogado com pedras, ou mochilas, a fazer de baliza, já foi chamado de fuço por não passar a bola em lances semelhantes. Qualquer miúdo de 10 anos sabe que deve passar a bola, pelo que não necessário fazer prints e bonecos para explicar algo tão consensual. A questão inteligente não é bater nessa tecla e fazer-nos a todos regressar aos tempos de rua, mas antes tentar decifrar se aquela verdade universal é assim tão universal. Para mim não é, e foi esse o objetivo inicial do post. Acho importante fazer os meus leitores pensarem, verem as coisas por outro prisma. Para lugares comuns não valia a pena perder o meu tempo nem o vosso. Não é isso que vão encontrar aqui. Para mim vale a pena debater uma questão, ainda que esta apenas se verifique uma vez em cada 100 (a tal história do Ronaldo Fenómeno e do Paulo Sousa).

As jogadas à Mané, ou também recentemente à Bale, são igualmente alvo de grande censura por parte dos adeptos e pelos companheiros de equipa, dos media, dos bloggers, mas como será que atua um treinador profissional nestas situações? Dá-lhe grande alarido, volta à idade média e coloca o prevaricador a treinar 100 vezes o mesmo lance (esquecendo-se que se trata um profissional e não de um puto de 12 anos), faz desenhos para explicar ao jogador como jogar (como se ele não soubesse isso desde a idade infantil) ou trata-o como uma máquina sem sentimentos, sem ter em conta as particularidades (o que o obrigaria a pensar),  que deve agir sempre da mesma forma?

Eu já tinha abordado esta questão num post do dia 12 de outubro de 2014:

“Na perspetiva de um jogador abrir mão da glória, leia-se golo, gera sempre um conflito intelectual. O ego quer marcar, a solidariedade quer passar a bola, passando com ela toda uma gloria perdida. Quem conhece o género humano sabe que o egoísmo, o pensar em si mesmo, é normalmente um sentimento mais forte que o dar a mão ao próximo ou realizar algo em prol do coletivo. Se os seres humanos fossem robots tinha concordado com o post, no entanto, analisar o futebol esquecendo a natureza intrínseca dos seus praticantes leva ao erro.

Como solucionar este problema? Para mim, passa por educar os jogadores de futebol quando estão nas camadas jovens. Cada clube necessita de um guru, de alguém que conheça como o ser humano funciona, que tenha competências pedagógicas, e que explique aos jovens praticantes porque devem adotar uma solução em detrimento de outra. Não basta dizer “faz assim” (provavelmente no dia seguinte volta a prevaricar), mas explicar o porquê de dever executar de determinada maneira, esclarecendo que o sucesso coletivo traz normalmente mais sucesso a cada um dos elementos que compõem o todo, do que o sucesso obtido por cada um deles individualmente. O jogador, egoísta por natureza, vai entender que ele próprio fica a ganhar mais se optar por uma visão macro (sucesso da equipa) do que continuar a insistir numa visão micro (sucesso individual num determinado jogo).”

Ancelotti, por sua vez responde deste modo perante o individualismo de Bale (que não passou a bola por duas vezes para colegas que supostamente estavam melhor colocados para finalizar):

«Vi a jogada e não era fácil passar a bola porque havia pouco espaço. Acho que no fim de contas tomou a melhor decisão, como já o fez tantas vezes».

(retirado do jornal A Bola online)

“Em Valencia, todos pensavam que ele podia ter passado. Ele fez uma ótima partida. Marcou, foi protagonista do primeiro gol. A torcida pediu o passe para o Cristiano, mas os atacantes querem marcar quando estão diante do goleiro. O altruísmo é importante e, se alguém é egoísta, vamos resolver. As pessoas exigem muito dos jogadores importantes e Bale é um deles”.

(retirado do site: http://globoesporte.globo.com/)

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Ainda o lance do Mané

Retomando o tema do último post (sobre a decisão do Mané), se o jogador do Sporting tem passado a bola (no caso, considero que era a suposta melhor decisão), o colega que a receberia ficaria, em princípio, com a baliza aberta para marcar . Mas a baliza aberta num lance daqueles é sinónimo de golo? Aparentemente sim, mas também depende do contexto (por ex. estado do relvado), das qualidades do adversário (por ex.  mais rápido ou mais lento a recuperar) e de quem recebe a bola (se apresenta dificuldades em acertar na baliza em situações de jogo jogado).

Porque razão tantos jogadores profissionais falham tantos penaltis? Podem-me responder que não obstante a baliza ter 7 metros há um guarda-redes parado em frente. E eu contesto, mas a bola está parada e têm todo o tempo do mundo para escolher para onde a devem enviar. Ainda assim muitos jogadores não conseguem finalizar (alguns mesmo, nem na baliza acertam) ou apresentam fracos índices de concretização (mesmo sabendo que há zonas da baliza que o guarda redes não têm hipóteses de alcançar com as mãos em tempo útil). A mim, esta realidade, não me choca minimamente. Em termos de execução, não é nada de especial, basta escolher um lado e mandar a bola com alguma velocidade, mas vida real, fora das bibliotecas, o jogador sente a pressão, e há muitos que nestas situações lidam muito mal com ela.

No lance do Mané, ou em lances semelhantes, se este tem passado, quem recebe a bola, não só a recebe em movimento (ao contrário do penalty), o que obriga o cérebro a fazer mais cálculos (espaço/tempo), como tem muito menos tempo para pensar e executar do que quando comparado com a marcação do penalty. Como já não há guarda-redes, em termos de execução, não é nada de especial, basta mandar a bola em direção à baliza com alguma velocidade, mas na vida real, fora das bibliotecas, o jogador sente a pressão, e há muitos que nestas situações lidam muito mal com ela.

Eu tenho a certeza que se as grandes penalidades não existissem, haveriam génios que tratariam de assegurar que qualquer jogador profissional naquela circunstancia marcaria golo. O que não é minimamente verdade, como sabemos.

As pessoas têm que compreender que a maioria dos jogadores profissionais, não dominam a bola como se esta pertencesse ao próprio corpo; que muitos não estão minimamente talhados para tarefas ofensivas (como um simples remate à baliza em jogo jogado).

Não podemos esquecer a pressão que um jogador é sujeito quando marca um penalty ou quando finaliza uma jogada em que só tem de rematar em frente; e muitos, não obstante serem tratados como máquinas decisórias, reagem mal perante tamanho jugo. Há que ter isso em conta quando tentamos definir qual a suposta melhor decisão.

Os que fazem prints com desenhos e bonecos a determinar a melhor decisão como verdade irrefutável, que me desculpem, mas a melhor decisão nem sempre é a mesma. O futebol não é assim tão simples. Depende de muitos fatores, que devem ser conjugados e tidos em conta. Se em vez do Mané, fosse o Ronaldo Fenómeno, e quem estivesse em vias de receber a bola fosse o Paulo Sousa, eu diria ao brasileiro para ser ele a concretizar. Para mim, essa seria a suposta melhor decisão: Aquela que tinha maiores probabilidades de ser bem executada e aquela que apresentaria uma maior taxa de contribuição para o sucesso.

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A suposta melhor decisão é sempre a melhor decisão?

Analisemos o lance do Mané no recente jogo Sporting X Famalicão (a partir do 3:53). Em vez do jovem jogador fazer um passe para o lado para o companheiro que se encontrava sem oposição (a suposta melhor decisão), tenta o lance individual e impede a equipa de atingir o sucesso (marcar golo).

http://videos.sapo.pt/DY2R0GlzZ0swRSVezK5A

Neste tipo de lances a melhor decisão será sempre a mesma (lateralizar)? Para percebermos a complexidade da questão e o erro em não analisar o contexto e os protagonistas quando damos uma resposta inequívoca lanço os seguintes exemplos hipotéticos:

 – Imaginemos que o portador da bola era o Ronaldo Fenómeno nos seus tempos áureos (um dos melhores jogadores de sempre a contornar guarda-redes). O possível recetor era o ex-internacional português Paulo Sousa (um excelente jogador mas com graves problemas no remate à baliza). Neste caso, se o portador da bola decidisse finalizar tomaria a melhor decisão, uma boa decisão (mas não a melhor decisão) ou uma má decisão?

– Imaginemos que o portador da bola era o Messi. O possível recetor era o Capel e que o terreno de jogo estava alagado e a bola tinha tendência a parar naquela zona do terreno. Neste caso, se o portador da bola decidisse finalizar (sem tentar contornar o guarda-redes) tomaria a melhor decisão, uma boa decisão (mas não a melhor decisão) ou uma má decisão?

– Imaginemos que o portador da bola era o Diego Costa. O possível recetor era o Hazard que se encontrava a jogar com algumas limitações e que só não tinha sido substituído porque as substituições já tinha sido todas realizadas. Neste caso, se o portador da bola decidisse finalizar tomaria a melhor decisão, uma boa decisão (mas não a melhor decisão) ou uma má decisão?

Novas tendências?

Uma “boa” ideia que não resultou (e que visualmente até se tornou algo patética) ou simplesmente fazer do relvado o nosso campo de experiências?

No recente jogo Lazio X Sampdoria, antes do apito do árbitro, estão 10 homens da equipa visitante na linha do meio campo. Após o apito do árbitro 3 jogadores avançam no terreno, 2 mantêm-se perto do grande círculo, 1 mantêm-se perto da linha do meio-campo junto à lateral e 4 jogadores recuam, vindo um deles a receber a bola e consequentemente lançar ao primeiro toque para um dos três colegas da frente.

Se a ideia passava por criar um 3X3+1 (sem descurar o aspeto defensivo), lançando a bola para as costas dos homens mais adiantados e aproveitar o efeito surpresa, até poderia passar na prova teórica. Na prática, neste caso, ficou longe de resultar. As ideias até podem ser maravilhosas, mas sem executantes à altura, não passam disso mesmo, ideias.

Futebol by Stan Lee

Tenho denotado na blogosfera uma tendência para colocar prints com situações de jogo e setinhas sugestivas para demonstrar qual a melhor decisão a adotar.  São exercícios interessantes e que podem ser pedagógicos, mas que pela forma como têm sido veiculados devem ser analisados com pinças. Importa sair do Matrix e do mundo rodeado de livros, vulgo bibliotecas.

Na análise deve sempre ter-se em conta os protagonistas. Não posso colocar as mesmas setinhas para um Pierre Littbarski e para o Tulipa. Nem posso fazer os mesmos bonecos se quem vai receber a bola é o Sterling ou o Pedro Barbosa.

No conforto dos nossos lares com todo o tempo do mundo para magicar a melhor decisão fazer banha desenhada é fácil. E depois apontar o dedo ainda mais. Mas é demasiado simplista. O futebol exige-nos mais do que isso.

Aproveitando a deixa do Lateral Esquerdo, que não anda a lidar bem com as minhas críticas (nem com as dos comentadores que ousam contradizer), coloco aqui o fotograma do blog Futebol Tático:

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A sugestão é interessante e pode, na vida real, ser ministrada ao jogador numa tónica de evolução, mas se não tivermos em conta os protagonistas e suas limitações haverá sempre supostas melhores decisões do que aquelas que foram tomadas em situações de stress (leia-se jogo jogado). Até onde posso ir se não tenho em conta as particularidades e trato os jogadores como robots? Poderia sugerir que o Adrien  mandasse um foguete ao ângulo em vez de conduzir e fixar? Ao Eusébio poderia, só que o Adrien não é o Eusébio. Pois.  Ou então que passasse entre os dois oponentes à Ronaldo Fenómeno quando tinha 20 anos? Passe o exagero, esta analogia serve apenas para demonstrar que estamos a falar de seres humanos e que as suas virtudes e defeitos devem ser tidas em conta. Na minha opinião, e porque conheço os dois protagonistas, se o Adrien não tivesse soltado a bola arriscava-se a apanhar o Carrillo em situação de fora de jogo.

Bonecada sim, mas o treinador antes disso deve analisar e conhecer muito bem os seus jogadores para só então determinar a suposta melhor decisão que aquele poderia ter adotado. Isso obriga a deixar os PC’s e antes de ir para o relvado de tablet em riste pensar um bocadinho mais além.

Paulo Oliveira, Jefferson, Cédric, Carrillo, Nani, Slimani e Adrien

Após ter visto o Sporting X Estoril, posso destacar:

– A honestidade futebolística de Paulo Oliveira (tem tudo para começar a receber chamadas à seleção A com regularidade);

– O desempenho do lateral esquerdo em melhor forma no campeonato português (com as bolas teleguiadas que o caracterizavam no Estoril a voltarem a engrenar de alguns jogos a esta parte);

– A escola de Cédric (porque domina todos os momentos de jogo, manifestando a importância de um jogador cumprir paulatina e tempestivamente todas as etapas formativas);

– A alteração do chip no jovem peruano que finalmente compreende que a intensidade deve ser normal num extremo;

– A genialidade  de Nani porque faz coisas que normalmente não acontecem no campeonato português (e que nem Gaitan, nem Brahimi, nem Óliver conseguem ainda acompanhar);

– A vontade e evolução de Slimani. Nunca será um avançado de transporte, antes de último toque, mas é no jogo das tabelinhas que mais tem evoluído;

– O desempenho de Adrien (não obstante ainda ter de evoluir no capítulo da intensidade). Não só porque marcou duas vezes, ou porque foi crucial em todos os golos da sua equipa, mas antes pela forma como demonstrou um QI e uma capacidade técnica muito acima da média: Se no primeiro “adivinha” (e a capacidade de antecipar uma jogada não está relacionado com poderes paranormais ou com sorte, mas com a inteligência que permite ler o lance antes deste ocorrer) e revela uma boa capacidade de remate (com o corpo em posição perfeita); no segundo, abandona o próprio ego em prol da equipa deixando a bola avançar para um colega mais bem posicionado; no terceiro, tudo acontece porque está bem posicionado no campo e recupera e lança jogo de forma eficiente após uma interceção/receção orientada que parece fácil mas cuja realidade tem vindo a provar que é só para alguns.

A decisão e o fator X

Opto por colocar aqui, à vista de todos, o comentário do Perspicácias e a minha resposta na caixa de comentários no post anterior (Entretanto o njfernandes87, adiantou-se e apresentou uma resposta interessante, apoiada no movimento que o Guarda-redes terá que fazer face ao movimento do Diego Costa). O objetivo deste post não é de achincalhar os que aqui gostam de vir e que contribuem com sãs discussões, mas apenas apresentar as diferentes perspetivas sobre o mesmo lance.

Comentário do Perspicácias:

“Opinião absurda. Primeiro: a teoria está certíssima. Não é futebol, é matemática. Quanto maior o ângulo, melhor. É evidente, e todos os jogadores procuram sempre o melhor ângulo possível. Segundo: neste caso, o melhor ângulo possível é aquele, na medida em que há 4 adversários a bloquear o caminho para um ângulo melhor. Não estando lá esses adversários, o Diego Costa procuraria um ângulo melhor, como é óbvio”.

O meu comentário:

Quando escreve “Não é futebol, é matemática. Quanto maior o ângulo, melhor”, feliz ou infelizmente isso não é verdade. De uma perspetiva puramente matemática quanto maior ângulo, melhor, mas onde fica o jogador e os aspetos subjetivos associados à forma como este vê e interage com o mundo? Tratamo-lo como uma peça de xadrez ou como um soldadinho de chumbo? O mal de certas doutrinas, no que aos aspetos decisórios dizem respeito, é que tratam de estandardizar o jogador à busca de uma solução prévia e compreensível para tudo. A mente humana é demasiada complexa. Porque razão haverá pessoas destras que se sentem mais confortáveis em usar o garfo na mão esquerda, ou porque razão umas preferem apertar os botões da camisa de cima para baixo e outras de baixo para cima? No futebol esses comportamentos, supostamente inexplicáveis, verificam-se. Quando tratamos de dissecar qual é a suposta melhor decisão devemos ter em conta a complexidade da mente humana por mais que isso nos irrite. O homem e o atleta não se comportam como máquinas.

Nos meus relatórios, há um fator que introduzo para avaliar o aspeto decisório. É aquilo a que chamo o fator “conforto”. O Diego Costa procurou matematicamente um pior ângulo, porque na sua perspetiva, se sentiu mais confortável em rematar daquele modo. Não interessa colocar o jogador ao serviço da matemática, se depois isso diminui o seu fator conforto, fator essencial para alcançar o sucesso da equipa. É importante que na tomada de decisão o jogador encontre a sua posição de conforto e não a posição de conforto do matemático. Já não é a primeira vez que o avançado espanhol procura aquela posição de conforto para fulminar as redes adversárias. Se eu a analisar à luz das ciências exatas, terei tendência em afirmar que o jogador foi burro (não obstante ter marcado). Se introduzir mais elementos, conseguirei compreender melhor o meu jogador e valorizar de uma forma mais justa a sua decisão. Insistir com o Diego Costa para procurar sempre o melhor ângulo seria um péssimo ato enquanto treinador. Ao gestor compete conhecer os seus jogadores e ter as suas particularidades em conta. Este é um dos motivos para que não acho pedagógico determinados vídeos a explorar “a melhor decisão”, quando muitas vezes nunca treinámos o jogador e nem conhecemos as suas particularidades, (muitas vezes porque não nos damos ao trabalho das analisar e das considerar, optando por rir antes de ir treinar para o pelado). Por essa razão, quando escreve “É evidente, e todos os jogadores procuram sempre o melhor ângulo possível”, não considero que seja sempre verdade. O mundo não é a preto e branco.

Quando escreve “Segundo: neste caso, o melhor ângulo possível é aquele, na medida em que há 4 adversários a bloquear o caminho para um ângulo melhor. Não estando lá esses adversários, o Diego Costa procuraria um ângulo melhor, como é óbvio”. Permita-me discordar. O Diego Costa podia muito bem ter-se desviado para a direita e desferido um pontapé. A faze-lo teria um melhor ângulo, mas onde ficaria o fator “conforto”? Pelo que conheço do Fernando Torres inclino-me a pensar que tomaria essa decisão e que numa ótica puramente matemática, esta seria melhor do que a do Diego Costa, no entanto, face ao fraco desempenho que vem revelando nos últimos anos, não me deixaria muito otimista no que ao sucesso da equipa diz respeito.

 

 

 

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