Tenho o conhecimento por isso posso ser pulha?

by Alexander Sweden

“Na primeira parte perdemos 45 minutos. Equivoquei-me na escolha do onze”

Palavras de Simeone após a derrota de Vigo (in A Bola online).

A importância destas palavras vão muito para além de um mero autorreconhecimento das suas  limitações enquanto treinador de futebol, antes obriga a pensar o que torna este indivíduo em um dos melhores técnicos do futebol mundial.

No meu dia-a-dia constato demasiados treinadores obcecados em centrarem todos os seus esforços no conhecimento empírico da ciência futebolista, na metodologia de treino, na análise exaustiva de determinadas jogadas, no desvio para lá do racional na tomada de decisão como se esta fosse o alfa e o ómega do futebol (realidade mais vigente em alguns técnicos do futebol sénior amador e de formação), mas demasiado despreocupados com outras competências, porventura excessivamente importantes para serem frequentemente esquecidas.

O que faz de Simeone aquilo que ele é hoje? Um conhecedor da ciência futebolística, um obcecado pela decisão, pelo fixa e passa (que normalmente deslumbra os treinadores habituados a treinar num contexto de futebol mais atabalhoado, usual nas divisões inferiores) ou por um futebol de levar a bola em detrimento do soltar rápido (o que fomenta o reposicionamento da equipa adversária e maximiza as possibilidades do adversário cair em fora de jogo, fator menos importante em campeonatos ajuizados por árbitros de divisões inferiores ou quando protagonizados por jogadores que não têm tempo para treinar os processos defensivos porque as profissões principais a que se dedicam roubam demasiado tempo)? Ou será antes a forma como lidera, como motiva, como se transforma num sábio condutor de homens, não só pelo que sabe, mas principalmente pelo modo como se comporta com os seus semelhantes?

Infelizmente este aspeto tem sido demasiadas vezes esquecido pelas faculdades ou nos estágios, na blogosfera ou na imprensa dita especializada. A realidade, no entanto, demonstra-nos que não basta o conhecimento teórico e prático, ainda que rudimentar em muitos aspetos, se depois, quem o ministra, não assume uma postura condigna, moral e vertical perante todos aqueles com quem o partilha. O jogador dos dias de hoje rapidamente percebe o tipo de líder com quem trabalha frequentemente, e para que o leve a sério importa que o veja como alguém por quem faça sentido dar tudo em campo debaixo de uma fidelidade quase canina.

Indubitavelmente este é um dos truques de Mourinho (mas quando falhou em Madrid isso foi-lhe fatal), e seguramente também o de Simeone. Não basta ter conhecimento, importa que ele seja tido em conta pelos seus destinatários, e tanto mais será quanto mais o emissor da mensagem seja digno de credibilidade. Se se comporta com um rato do cano perante o mundo que o cerca, é natural que tudo o que possa emanar de tal estirpe seja facilmente equacionado e tido em causa.

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