La Stratégie

by Alexander Sweden

Tag: Guardar a bola

Passe versus boa decisão

Analisando a segunda parte do jogo França X Portugal, salta à vista o passe de Benzema para o golo de Pogba em contraponto com o passe de Éder para o remate, sem êxito, de Ronaldo. Este lance ajuda a explicar a importância da tomada de decisão, mas principalmente da importância da qualidade do passe e o momento em que ele é executado. Ambos os jogadores decidiram bem (ainda assim, um melhor que o outro), mas apenas um deles manifestou uma boa técnica de passe. Quem executou bem viu a sua equipa marcar (o fim último do futebol). Quem executou mal viu a sua equipa falhar. Haverá oportunidade para falar nas qualidades e nos defeitos do avançado francês (num post futuro), mas o que importa aqui é centrar na máxima pensar bem é importante, executar corretamente é muito mais.

Passemos à análise:

Benzema:

No lance que antecede o golo de Pogba, Benzema viu-se confrontado, pelo menos, perante três opções: rematar/contemporizar/passar.

Rematar: Marcado de perto por Ricardo Carvalho, a hipótese de Benzema ter sucesso (leia-se, marcar golo), seria reduzida. A técnica de remate tampouco lhe valeria de muito, porque rematar naquele espaço exíguo de terreno com um adversário à sua frente estaria potencialmente reduzido ao fracasso.

Contemporizar: Guardar a bola na grande área adversária com vários adversários na sua zona de ação obrigaria Benzema a perder tempo e a virar-se de costas para o objetivo (baliza/golo). Esta solução aumentaria a possibilidade de insucesso (só haveria sucesso se eventualmente ganhasse um penalty perante um erro crasso do adversário), porque contemporizar em zonas de terreno lotadas de adversários normalmente dá falta (tratando-se da grande área esta hipótese desce radicalmente) ou perda da posse da bola. Havendo outra tomada de decisão disponível, que potencia o sucesso, a contemporização perdeu naturalmente a sua razão de ser.

Passar: Benzema, no momento em que tem a bola, tem um colega (Pogba) a vir nas suas costas sem oposição frontal (Pogba está posicionado entre Ricardo Carvalho e Eliseu) e portanto numa situação mais favorável para faturar. Lateralizando a bola com conta, peso e medida, Benzema potenciou as hipóteses do equipa marcar. A forma como o francês colocou a bola (rasteiro e sem imprimir demasiada velocidade à bola) foi meio golo. Pogba, bem posicionado, com tempo para tirar as medidas à baliza, confirmar o posicionamento dos oponentes e focar-se no local e momento onde o seu pé se encontraria com a bola, concretizou o golo.

Éder:

No lance que antecede o falhanço de Ronaldo, Éder viu-se confrontado, pelo menos, perante três opções: rematar/contemporizar/passar.

Rematar: De costas para a baliza e marcado de perto por Mangala, a hipótese de Éder ter sucesso (leia-se, marcar golo), seria reduzida. A técnica de remate tampouco lhe valeria tal como explicado anteriormente (com a agravante de estar de costas para a baliza e da bola vir pelo ar).

Contemporizar: Guardar a bola na grande área adversária com vários adversários na sua zona de ação obrigaria Éder a perder tempo. Esta solução aumentaria a possibilidade de insucesso pelas razões já explicadas. Havendo outra tomada de decisão disponível, que potencia o sucesso, a contemporização perdeu naturalmente a sua razão de ser.

Passar: Éder, no momento em que recebe a bola, tem um colega (Ronaldo) a vir do seu lado direito, de frente para a baliza, com menor oposição (porque o adversário direto estava mais longe) e com maior ângulo para rematar e portanto numa situação mais favorável para faturar. Lateralizando a bola com conta, peso e medida, Éder potenciaria as hipóteses da equipa marcar. A forma como o português colocou a bola aos trambolhões (em balão) e demorou em decidir (não devia ter deixado a bola bater no chão) agravou as hipóteses de golo. Ronaldo, bem posicionado (não tão bem posicionado como Pogba e não tão bem posicionado se o Éder tivesse colocado de pronto a bola), com tempo suficiente para tirar as medidas à baliza, confirmar o posicionamento dos oponentes e focar-se no local e momento onde o seu pé vai bater a bola (tarefa mais difícil para o português porque quando a bola vem numa trajetória pouco linear e pelo ar, o cérebro humano tem que fazer mais cálculos para decifrar o local e o momento exato em que  o remate se dá) falhou o golo. Boa tomada de decisão de Éder ainda assim mas péssima execução técnica de passe (a forma como este faz o passe com a bola a saltitar à sua frente é nitidamente inferior ao que o francês fez perante a mesma problemática).

Para sermos justos importa referir que, por um lado, Éder  tinha uma tarefa um pouco mais difícil porque o passe veio pelo ar enquanto o francês recebeu a bola pelo chão, mas por outro, tinha confronto visual com recetor do passe, enquanto o francês não. De qualquer maneira Éder nunca deveria ter deixado a bola bater à sua frente, mas atacá-la de imediato e colocá-la pelo chão para Ronaldo rematar. Não custa acreditar se no lugar do Éder tivéssemos um Benzema, Ronaldo provavelmente teria sido alvo de uma melhor assistência e teria marcado. Isto ajuda a explicar porque Ronaldo marca muito mais no Real Madrid que ao serviço da Seleção.

 

A técnica

Desde que me lembro, tenho ouvido supostos especialistas afirmarem que determinado jogador é bom ou é mau tecnicamente. Importa então questionar o que significa “técnica” no contexto futebolístico. Aqui defendemos que é sinónimo de habilidade para lidar com a bola nos mais diversos aspetos de jogo. A técnica pode deste modo dividir-se em 8 sub conceitos:

– Receção: Zidade era um dos expoentes máximos. Se houver boa capacidade neste parâmetro, a bola, venha ela de onde vier e como vier, estará condenada, à partida, a ficar limitada à esfera de atuação do recetor. Dentro deste conceito, podemos distinguir receção pura e simples da receção orientada. A primeira significa dominar a bola sem qualquer outra preocupação senão esta. Dominar esta abordagem permite que a equipa mantenha a posse de bola. A segunda acontece sempre que o jogador não só domina a bola, como, nesse gesto, a prepara para dar-lhe sequência: passe, remate ou apenas a proteção do esférico. Esta última vertente, além de permitir que a equipa mantenha a posse de bola, potencia maior imprevisibilidade quando comparada com o domínio puro e simples.

Neste vídeo (aos 17  segs.) é possível verificar uma extraordinária receção orientada por parte de Zidane.

– Drible: Está relacionado com a capacidade que o jogador, com bola, tem para retirar o adversário da zona de cobertura e não implica obrigatoriamente que seja executada em corrida, já que existem as chamadas fintas de corpo (a lembrar Ronaldinho) que podem revelar boa capacidade de drible, sempre que com estas se consegue enganar o adversário e tirá-lo da zona nevrálgica de ação. Normalmente “técnica” associa-se sobremaneira ao parâmetro “drible”. Discordamos por ser demasiado redutor. Técnica é muito mais do que isso;

– Passe (curto, médio, longo, reto, em arco, tenso, bombeado, etc.): Beckham foi um dos jogadores com mais técnica neste vetor (especialmente no que respeita a passes médios, longos, tensos e em arco).  Um dos aspetos mais importantes do futebol diz respeito ao capítulo do passe, porque é este que liga a equipa, que contribui para determinar estratégias (jogar para ou pelo corredor central, jogar para ou pelo o corredor lateral) e que potencia o êxito dos colegas (os chamados passes de morte, onde Fàbregas é maravilhoso);

– Remate (com os pés ou com a cabeça, de bola corrida ou parada): A forma como se remate (curta, média, longa distância) exige técnica. Ainda que seja um contacto rápido e único com a bola, a técnica (leia-se, a forma como o contacto com a bola, apoiado pela posição corporal, ocorre)  é determinante. Há jogadores, como o Lampard, que revelam um grande índice de aproveitamento em remates de meia distância, quando comparados com a média, porque possuem técnica.

– Tackle (com os pés ou com a cabeça, de bola corrida ou parada): Mesmo no desarme é possível graduar a habilidade no contacto com a bola.  O tackle pode exigir um excelente nível técnico, desde a apuradíssima técnica do corte à flor da relva à Gamarra (que usava o calcanhar para roubar a bola ao oponente e ficar com ela) e porque não, à Marco Aurélio (que utilizava aquela perna longa para “pisar” a bola e resgatá-la ao adversário), aos  cirúrgicos cortes de cabeça que no mesmo gesto não só desviam a bola como a colocam no companheiro de equipa (Pepe é muito bom nesta abordagem). A técnica no tackle potencia não só o sucesso na eliminação da posse de bola do adversário de forma mais eficiente e conclusiva (é diferente cortar a bola para fora, dando a bola novamente no adversário, do que a colocar num dos seus colegas de equipa), como tem um papel importante no despoletar de jogadas no processo de transição momento defensivo/momento ofensivo, dando-se este mais rapidamente (é diferente um corte contra as pernas do adversário que dá lançamento, apenas marcado alguns segundo depois, que um corte que direciona a bola direitinha para o colega da equipa) e de forma mais eficaz (porque quanto mais rápida é a transição mais hipóteses há de apanhar a equipa adversária desorganizada defensivamente).

Neste vídeo é possível constatar que há determinados desarmes que exigem uma considerável capacidade técnica por parte do executante.

– Lançamento: Colocar a bola com as mãos no terreno de jogo, além da técnica rudimentar exigida, revela que esta pode ser importante para transformar simples lançamentos em autênticos cantos. Não basta força, exige conciliação desta com a capacidade da colocar na zona desejada, ou seja, exige técnica. Fazendo alusão aos guarda-redes, quanto maior técnica maior capacidade haverá de colocar a bola com conta peso e medida no colega (quem se pode esquecer as bolas teleguiadas enviadas pelas mãos do gigante Schmeichel quase até à linha do meio campo?).

Se isto não é técnica ao serviço do futebol não sei o que será! (mas a seguir podia ir para o circo que ninguém se importava).

– Guardar a bola: Manter a bola protegida e fora do alcance do adversário exige técnica. Pedro Barbosa foi um dos maiores exemplos da importância desta habilidade. Permite manter a posse de bola e pautar o ritmo de jogo (leia-se, decidir se avanço já para a próxima etapa – passe, drible, remate – ou se aguardo por melhor momento);

– Defesa (Guarda-redes): A forma com os guarda-redes defendem as suas balizas são reveladoras do nível da técnica que ostentam. A melhor técnica será aquela que melhor permitirá ao guardião impedir o golo, independentemente da elegância com que o faz. A elegância é uma técnica, mas não no sentido aqui tratado, não só porque futebol não é bailiado, como não tem repercussão direta na eficácia como a bola é retirada.

Neste vídeo é possível constatar a técnica ao serviço da baliza (1.18 segs. e  2.32 segs.)

Quando alguns afirmam que um jogador é fraco tecnicamente, nem sempre corresponde à verdade. Importa ter noção do conceito, analisar e só então qualificar.  Jardel era fraco no “drible” mas era fortíssimo no “remate” (principalmente, mas não só, de cabeça). Dominguez era ótimo no drible, mas era surreal no passe. Becham era formidável no passe e no remate mas era fraco no tackle (não porque fazia poucos carrinhos mas porque recuperava poucas bolas ao adversário). Todos eles eram bons tecnicamente, desde que analisados pelo parâmetro que mais os favorecia. E todos eles eram fracos tecnicamente, desde que analisados pelo parâmetro que mais os desfavorecia.

Zidane

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