La Stratégie

by Alexander Sweden

Tag: Maradona

Quando o Barcelona serve de exemplo eu desconfio

Tenho verificado, algures, no sentido de justificar alguma conceção de jogo, o recurso aos jogadores do Barcelona e ao modo como estes jogavam entre si.

Recorrer a uma as melhores equipas da história do futebol para justificar o que quer que seja, deixa-me sempre de pé atrás. Se preciso de recorrer a uma equipa tão específica, sui generis e rara no contexto futebolístico, não será que aquilo que procuro justificar só faça sentido num cenário também ele acidental e não aplicável à generalidade dos casos?

Na ciência médica, a aplicação de uma realidade extraordinária para justificar uma opção recorrente resultaria em mortes em massa. Seria o caso de começar-se a utilizar a aspirina para tratar todos os cancros só porque um paciente, sob o feito placebo, viu as células cancerígenas regredirem extraordinariamente após aquela toma. O médico negligente diria “vejam como aquele paciente ficou curado, vejam como se descobriu a cura!”.

Mesmo no âmbito das ciências humanas, como o Direito, existe a figura do homem médio (muito útil no Direito Penal). Este homem, uma ficção criada pelo julgador (juiz) na ora de decidir, é um sujeito que nem é demasiado inteligente, nem demasiado burro, nem demasiado culto, nem apreciador da Casa dos Segredos. No fundo, o nível médio tendo em conta a sociedade onde o caso a resolver judicialmente se disputa. E é com base e com referência a este homem médio, e no comportamento que em determinada situação este assumiria, e não num homem excecional ou no mais inteligente, que o juiz vai decidir determinado caso.

Partir de uma premissa excecional (como o futebol do Barcelona) para justificar uma conceção ou uma regra que depois queremos aplicar a tudo, é querer dar voz ao ditado “com papas e bolos se enganam os tolos”.

Para eu determinar se um jogador é bom, eu não recorro ao Maradona (porque me vai dar um resultado enganador e fazer parece-lo mais fraco do que realmente é), mas sim ao jogador médio daquela posição.

Desconhecer este princípio básico, retira credibilidade a quem pretende fazer doutrina. Se todo o edifício está construído num alicerce fraco e falacioso, em qualquer momento ele pode ruir. Para produzir conhecimento, eu devo conhecer as regras básicas da ciência, caso contrário deixarei de ser um “professor” e passarei a ser um merceeiro que vende banha da cobra.

Para se dar sustento a uma teoria, não é preciso recorrer ao excecional, porque sendo a amostra excecional, os resultados serão seguramente enganadores, porque existem grandes probabilidades desses resultados só fazerem sentido em situações também elas excecionais (e não na maioria dos casos como podemos querer fazer crer). Se a teoria estiver correta ela quase fala por si, e qualquer equipa média te ajudará a fundamentá-la.

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A decisão

Muito se tem falado da decisão, da boa decisão, da melhor decisão, mas poucos se atrevem em defini-la. Sendo um dos objetivos deste blog partilhar, com todos os que aqui gostam de vir, alguns conhecimentos, cumpre-me dissecar o conceito. A boa decisão é aquela que permite atingir o sucesso da equipa. O que é o sucesso da equipa? Ganhar ao seu oponente. E ganha-se através da simbiose marcar golos/não sofrer golos. Não implica necessariamente ganhar jogando melhor em termos exibicionais ou estatísticos. Quem lida diariamente com a pressão diabólica dos media, dos adeptos, dos sócios, das estruturas diretivas, não se pode dar ao luxo de ser lírico, tem que estar vocacionado para os resultados, porque são estes que dão currículo, que permitem a obtenção de títulos, que permitem atingir os resultados previamente determinados. Dir-me-ão, que o ideal será ganhar dando espetáculo. Concordo. Não sendo possível, o fundamental é ganhar. Minimizar as possibilidades de ganhar em detrimento do espetáculo é perder objetividade, é assumir-se como lírico. Os treinadores de clubes profissionais vêem-se obrigados a serem em primeira instância objetivos, porque os clubes funcionam como empresas, não são meras mesas de tertúlia onde se pode dar plenamente asas à imaginação. Nas grandes multinacionais, tal como nas equipas profissionais de futebol, não há grande espaço para tomar grandes riscos, para perder o foco, pois a eficiência está por todo o lado, ouvem-se os seus passos permanentemente e cumpre a um treinador zelar por ela. É-se pago a peso de ouro por isso, e é perante aquela que o seu trabalho será em primeiro lugar avaliado. Quem só escreve em blogs, ou trabalha no futebol amador, pode vaguear, pode ser idealista, todos os outros, não se podem dar a esse luxo.

Por outras palavras, a boa decisão, será aquela que não só permite atingir o sucesso, como atingi-lo da forma mais rápida possível.

Existe a boa decisão com bola e sem bola. Neste post só me irei ocupar da decisão com bola e significa que aquele que tem o esférico deve adotar a melhor opção perante as milhares de que dispõe. Como o jogador não sabe de antemão o futuro (antes de executar o que idealizou), ou seja, nunca tem a certeza se o que idealizou vai ser realmente concretizado, deve ter em mente o critério da probabilidade. Daí optar pelo termo “suposta melhor decisão” ou “suposta boa decisão”, porque o que se idealizou pode ser bom mas depois de concretizado, porque se falhou, vem a revelar-se terrível . Perante as várias boas decisões que são idealmente possíveis de executar por parte do possuidor da bola, que tem determinadas capacidades técnicas e físicas, quais aquelas que são as mais prováveis de serem realmente bem executadas?

Para que esta probabilidade possa ser aferida, o possuidor da bola deve ter uma completa noção das suas capacidades, das capacidades dos seus colegas e da capacidade dos seus oponentes. Quando se prepara o jogo é importante manifestar a cada um dos nossos jogadores, a capacidade nos diferentes parâmetros dos principais adversários com os quais se vai deparar. Cada jogador deve ter noção da exata probabilidade de sucesso daquilo que pretende executar e só o consegue:

–  Conhecendo-se a sim mesmo, ou seja,  ter a perfeita noção daquilo que consegue ou não executar em cada contexto de jogo;

– Conhecer o seu companheiro de equipa, nomeadamente quando se trata do capítulo do passe. Por ex. Poderá ser um erro colocar a bola no espaço para um colega que é lento;

–  Conhecer o seu opositor, ou seja, ter a perfeita noção daquilo que este consegue ou não executar em cada contexto de jogo.

No entanto para graduar a decisão, importa também ter em mente, a contribuição que esse lance terá para o sucesso da equipa (marcar ou evitar um golo). A decisão tanto melhor será quanto mais contribua para o sucesso da equipa.

Criei um cálculo que permite graduar a decisão e que se explica através da seguinte fórmula (fácil de colocar no papel mas difícil de determinar em cada lance específico):

Probabilidade de execução bem-sucedida (de 0 a 10) X Taxa de contribuição para o sucesso (de 0 a 10)

O melhor resultado final será o 100 (10X10). O 100 significa a certeza absoluta que a execução pensada será bem sucedida e que a mesma contribui totalmente para o sucesso (por ex., marcar um golo com um pequeno toque quando a bola já está  99% dentro da baliza adversária e não há qualquer oposição). Quanto maior é o algarismo (onde 0 é o valor mínimo e 100 o valor máximo) melhor será a decisão.

Importa então explicar melhor os dois elementos da fórmula:

A probabilidade de execução bem-sucedida pode ser medida numa escala de 0 a 10. 10 é a absoluta certeza que o que pensamos  vai ser executado na sua plenitude. 0 é a certeza absoluta que não vamos conseguir executar o que pensámos.  Quanto mais engenhosa é a execução, quanto mais exigente é técnica e fisicamente, menor será a probabilidade da execução ser bem-sucedida. Aqui entramos num conceito subjetivo porque a maior ou menor exigência técnica depende de cada executante (do que tem a bola e do que a recebe nos lances em que se pretende comunicar com o colega da equipa). Maradona fazia coisas que para ele eram simples, onde a probabilidade de executar conforme idealizado era enorme mas que para o Fernando Aguiar seriam praticamente impossíveis de realizar. A oposição do adversário é também tomada em conta neste parâmetro. Quanto maior e melhor oposição houver num lance específico menor será a probabilidade de execução ser bem-sucedida. Estamos perante outro conceito subjetivo, porque é diferente tentar um drible contra um jogador amador do que contra o Varane. Assim como é diferente ter um opositor do que ter dois ou três.

A taxa de contribuição para o sucesso pode ser medida numa escala de 0 a 10 e está relacionada com a influência que o lance em que o portador da bola está a pensar em executar tem para o sucesso, ou seja, para que a minha equipa marque um golo ou deixe de o sofrer. Um passe lateral no meio campo defensivo terá menor taxa de contribuição para o sucesso que um passe lateral para um colega isolado em plena área contrária. 10 significa que o lance a executar é determinante para o sucesso (por ex. um corte defensivo em cima da linha, um remate à baliza). 0 significa que o lance a executar é totalmente irrelevante para o sucesso da equipa.

Ainda falta um terceiro elemento na fórmula para nos aferir um valor mais consentâneo com a realidade, mas que será tratado num próximo post.

Entrevista a Jorge Jesus

“Depois, o Nani veio dar uma grande qualidade à equipa do Sporting, é um excelente jogador, de nível muito alto. Há bons e grandes jogadores e o Nani é um grande jogador. Um bom jogador é aquele que joga bem e o grande é aquele que joga bem e coloca os outros a jogar bem, que é o caso do Nani”, Jorge Jesus in Record.

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Retiro uma peça da entrevista de Jorge Jesus, que depois de louvada pelo blog Lateral Esquerdo, me trouxe alguma comichão aos ouvidos. Não ponho em causa o facto do Nani ser um grande jogador. Para mim é consensual, mas aquilo com que eu não concordo plenamente é o facto do grande jogador ser aquele que coloca os outros a jogar bem. Nem sempre acontece, nem mesmo com Maradona.

Compreendo a ideia de Jorge Jesus. Um grande jogador tem a capacidade de criar lances que potenciam o sucesso dos outros. Quem jogou futebol sabe que é distinto receber uma bola aos trambolhões do que em conta, peso e medida. Que no primeiro caso a possibilidade de darmos seguimento à jogada com qualidade é incomparavelmente superior à do segundo caso. Ter um grande jogador na equipa significa que eu, enquanto jogador “normal”, vou ter acesso a participar em jogadas, que nunca na vida me confrontaria e que nunca idealizei que pudessem ser postas em prática. Um grande jogador pensa e executa muito melhor do que os outros. E é nesta dupla abordagem que o jogador banal poderá “começar a jogar bem”, no fundo, a executar melhor (porque é lhe dada a possibilidade da receber ou de colocar a bola em melhores condições) e a pensar melhor porque passa a fazer parte da linha de pensamento, a dar sequência a algo, que ele, só por si, nunca teria genialidade para criar.

No entanto, ficarmos apenas nesta tónica induz em erro. Está incompleta. É falsa. Há sempre um risco de um jogador banal se banalizar ainda mais quando confrontado com um grande jogador. Perante o belo, o feio fica mais feio ainda. Se tenho tijolos nos pés, perante alguém que os tenha de porcelana, vai agudizar o meu estado miserável. Não será difícil de encontrar situações em que após uma boa jogada de um grande jogador, vem a ovelhinha negra estragar tudo. A ovelhinha deixou de passar despercebida. Anteriormente escondida na boçalidade geral, digna é agora de holofotes pelos piores motivos. Perante a genialidade do colega a sua mediocridade é realçada. Dito por outras palavras, um grande jogador nem sempre coloca os outros a jogar bem, muitas vezes evidencia o quanto aqueles jogam mal.

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