La Stratégie

by Alexander Sweden

Tag: Cristiano Ronaldo

Porque razão joga Sálvio e Ola John fica na bancada?

A resposta é muito simples, menos para os supostos especialistas que tanto advogam mas não sabem o que é a boa decisão.

Os erros com que me deparo não dizem respeito à divisão conceptual: decisão sem bola e com bola, até porque esta é fácil, mas principalmente a dois fatores:

– A desvalorização da primeira face à segunda;

– A errónea interpretação do que é a boa decisão com bola.

No que respeita ao primeiro ponto, Sálvio apresenta muitos golos porque decide muitas vezes bem sem bola, não obstante este aspeto ser muitas vezes desvalorizado (Ronaldo sofre com o mesmo fenómeno). Como se aparecer sem oposição para finalizar fosse apenas mérito do último passe (veja-se no primeiro vídeo o movimento inteligente do Sálvio no golo marcado contra o Belenenses) – ou a forma como se coloca o corpo para ganhar uma disputa, não possa ser fundamental e revelador de uma boa decisão sem bola (veja-se no segundo vídeo o golo do Sálvio contra o Moreirense – 1:03).

O facto de alguém aparecer sozinho não acontece a maioria das vezes por mera sorte ou pelo facto de ser possuidor de super-poderes que afastam os adversários. O último golo do Benfica marcado por Sálvio a passe de Gaitan (após grande jogada deste) foi importante para revelar as tendências mais recentes que vejo circular na blogsfera. Em nome de uma suposta intelectualidade, louva-se o assistente e coloca-se na jarra o finalizador. Parece que não há forma de encontrar o meio-termo. Se outrora, o foco incidia excessivamente no goleador, hoje tudo serve para elogiar o criador e desprezar o que culmina tão importante tarefa. Não faz sentido passar de uma obsessão pelo goleador e transferi-la para o jogador que faz a assistência. Ambos merecem ser valorizados. Se muitas vezes o jogador que assiste decidiu bem com bola, o que finaliza decidiu, num primeiro momento, bem sem bola e posteriormente bem com ela (ainda que muitas vezes esta última decisão seja bem fácil de tomar). Esta tendência também serve para desculpabilizar o avançado que não marca golos (tipo Postiga) pelo que supostamente dá ao jogo, quando o principal papel deste é marcar golos (o que não significa que não tenha de dar ao jogo). Será que um defesa central que não desempenha o seu principal papel, continuará a ser visto como um grande defesa só porque faz muitas assistências ou marca golos? No entanto, quando se fala de avançados já são merecedores de dois pesos, duas medidas.

Sobre o segundo ponto, certas escolas dão um conceito curioso e sui generis à decisão com bola. Parece que esta só é real quando estamos perante passes à Fàbregas ou nos referimos ao último passe tal como previamente o havíamos idealizamos e com o qual nos deleitamos. O simples passe para o lado pode ser uma ótima decisão (porque descongestiona e pode provocar o efeito harmónio – Ver aqui). Passes de morte, revelam boas decisões com bola? Seguramente que sim, mas isso não significa que passes menos imediatos rumo ao sucesso, não sejam dignos da mesma adjetivação. E quando não se adota a suposta melhor decisão, mas ainda assim contribui-se para o sucesso da equipa? Não se valoriza, esquece-se e recalca-se só porque o jogador não fez o que achámos que devia fazer. Tiramos o jogador do centro do mundo e colocámos no lugar dele o nosso intelecto ?

As tendências para radicalizar, para transformar o que é cinzento no preto e no branco, de forma a compreender todo o fenómeno futebolístico demonstra insegurança e revela insensatez. O futebol é demasiado complexo para que percamos o nosso tempo a tentar catalogar tudo de forma hermética e teimar em recusar ver o futebol como um todo, só porque é mais fácil e confortável analisá-lo de forma compartimentada seguindo certas tendências sensacionalistas.

Porque o cérebro com que nascemos não basta.

A propósito do simulador 360S cumpre-me o seguinte desabafo:

Saber decidir é muito importante no futebol, sempre o foi, e vaticino que continuará a ser, mas esta capacidade torna-se uma mão cheia de nada se deixar de ser fomentada pelo treino, e se este não for aproveitado para incrementar outros parâmetros (físicos e técnicos). Ao contrário do que se apregoa, a velocidade, a força, a agilidade, com verdadeiro impacto desportivo, não são fáceis de alcançar num mundo tão competitivo. Requer esforço, requer deixar de acreditar na história da carochinha que leva muitos jovens a deixar de trabalhar mais do que os outros só porque nessa faixa etária decidem melhor do que os outros. Que caminho perigoso é este de tornar um bom indiciador numa verdade absoluta que garanta o êxito.

Zidane trabalhava mais do que os outros. Ronaldo trabalha mais do que os outros. O treino, e a forma como este é levado ao limite, assume, cada vez mais, uma importância vital porque potencia as capacidades físicas e mentais. O treino pode e deve valorizar ambas as vertentes e só através desta simbiose, o jogador de futebol pode singrar. A capacidade de decisão, sem capacidades técnico-físicas à altura, torna-se ínfima. A técnica e a física, sem o uso do cérebro, torna-se um desastre.

O mundo não é a preto a branco (por mais que nos ajudasse a compreender o fenómeno futebolístico). Na cor cinzenta, cabe a preocupação do treinador em potenciar, através do treino, os aspetos físicos e os aspetos decisórios, já que estes devem andar de mãos dadas. Quando falta um deles, o outro ressente-se, fica órfão e a carreira vai-se.

Gonçalo Guedes mais forte que Ronaldo?

“É um talento emergente do futebol português e, na minha opinião, pode tornar-se mais forte que Cristiano Ronaldo”, defendeu o empresário de Gonçalo Guedes.

A inexistência de um código de conduta rigoroso aplicável aos empresários do futebol torna estas afirmações sem punição. Se ontem foi abordada a importância dos treinadores colocarem água na fervura no que respeita ao manter o ego dos jovens jogadores inamovível, hoje destaca-se a estúpidez humana.

Qual a vantagem de proferir estas afirmações completamente sensacionalistas na perspetiva do jovem atleta? Nenhuma, a não ser criar ilusões que competirá depois ao Jesus gerir com a ajuda de um extintor.

Na perspetiva do empresário percebe-se a avidez, a pressa em potenciar um dos seus ativos. Mas não seria suposto que este olhasse primeiro para os interesses do seu representado em vez do próprio umbigo?

Urge às instâncias regular o papel dos agentes do futebol. Não é bom para o espetáculo observar no palco principal uns a potenciar o sucesso futebolístico dos jovens e os demais a potenciar os próprios bolsos e o risco de mais uma promessa falhada.

A importância do treino. Do físico. Do corpo. Porque só o talento e o cérebro não bastam.

“It’s not by accident. The hours he puts in to practice to work to get his body right to prepare to look after himself, it’s an absolute joy to see that talent”.

Palavras de Brendan Rodgers sobre Cristiano Ronaldo.

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Os que detestam ser confrontados (porque sabem tudo) versus os atrevidos (porque apontam o dedo)

Relativamente ao recente post do Lateral Esquerdo, cumpre-me levantar algumas lebres. Quando o autor escreve: “Conheço um tipo que diz que saber ler não é saber o significado das palavras juntas numa frase. É saber interpretar o significado das palavras em conjunto”, fico satisfeito, porque presumo que o autor se esteja a referir a ele próprio. É sempre salutar conhecermo-nos a nós mesmos.

É também devido a essa iliteracia que não fico aborrecido com a distorção que o autor do referido blog faz perante aquilo que defendo neste espaço. Não é nitidamente má-fé, antes dificuldade em saber as palavras juntas numa frase.

Como uma mentira dita muitas vezes, torna-se verdade, cumpre-me rebater alguns pontos (podia rebatê-los a todos, mas alguns são tão ridículos que quem me lê atentamente automaticamente os refuta):

Em momento algum afirmei que a tomada de decisão não é o fator mais importante e diferenciador da qualidade no futebol de hoje. Aquilo que eu afirmo e reafirmo é que esta só por si não suficiente. Necessita de andar de mãos dadas com outras valias e por isso posso afirmar que não quero um jogador que só decida bem porque o futebol precisa de muito mais. Há alguns jogadores que não obstante serem fracos na capítulo da decisão, compensam esse défice com outras mais-valias e apresentam um saldo final mais positivo que muitos que só sabem decidir. Que é um bom indiciador? Sem dúvida, parece-me consensual, mas não justifica toda uma doutrina suportada apenas nesse padrão.

O autor do referido blog, quiçá confuso com tanta informação, e talvez porque não gosta de ser confrontado no plano das ideias (basta analisar a forma como responde a alguns comentários dos seus seguidores e como assobia para o ar perante outros) veio afirmar “Essa mesma escola, é a que coloca James, e Ibrahimovic no mesmo perfil de decisão de Diego Costa e Di Maria”. É falso, em momento algum coloquei estes 4 atletas no mesmo perfil da decisão, aquilo que referi é que os quatro não eram claramente conhecidos por tomarem a maioria das vezes a suposta melhor decisão. Ou seja, são normalmente associados a outras mais valias que não essa. Partir destas palavras e construir toda uma teoria que constata que os estou a colocar no mesmo perfil de decisão torna-se hilariante. Penso que seria mais oportuno assumir se prefere o Montero ao Diego Costa ou o Postiga ao mesmo Diego Costa.

Finalmente, o autor do lateral esquerdo, demonstra tanta preocupação como aquilo que eu escrevo que até já marca aqueles que me seguem e por isso vem afirmar: “E que já tem alguns seguidores que colocam Messi na mesma categoria de Hulk e Ronaldo, e como se não fosse possível ser mais atrevido, na mesma intervenção compara-os à, admirem-se, Bebé”. Não seria preferível deixar de perder tempo com isso, permitir que as pessoas se expressem sem lhes apontar uma arma à cabeça num tom arrogante como quem sabe tudo (mas que profissionalmente prova muito pouco) e tratar de preencher as lacunas da sua escola para que esta não se assemelhe tanto a um queijo suíço. Ou então, porque não criar uma daqueles vídeos onde consegue (não obstante não ver o terreno de jogo todo) afirmar a priori qual a melhor decisão?

p.s. claro que não gosta de atrevidos, prefere aqueles que não o questionam, que não o confrontam (até porque quando o fazem normalmente reage mal, não admite o erro, pois se já sabe tudo, porquê evoluir e aprender escutando outros pontos de vista). Espero sinceramente que não seja um tirano. O tirano normalmente não compreende o sentido de humor (tipo trivela foguete), leva tudo demasiado a sério e odeia que as suas ideias sejam colocadas em causa.

A capacidade física

Após um post onde defini o que é a técnica (algo bem mais do que fintinhas), considerei importante partilhar com as centenas dos que me leem o que é afinal a capacidade física.

No contexto futebolístico, ela não terá de ser necessariamente sinónimo de força bruta, capacidade de choque com o oponente, de levar pancada e voltar a levantar-se, velocidade, capacidade de aceleração ou impulsão. Ver a capacidade física apenas por este prisma é bastante redutor, tal como é redutor analisar e valorizar um jogador apenas e tão só a partir da sua capacidade de tomar as supostas melhores decisões.

Quando se invoca que determinado jogador tem uma grande capacidade física, ou altos índices físicos, não significa que ele tenha de ter o pescoço do diâmetro de um boi, um six pack que dê para lavar a roupa, que o seu dorso seja em formato V, muito menos que tenha de se assemelhar a um lutador de Wrestling.

Um dos meus leitores confessou-me que o Cristiano Ronaldo com 17 anos era fraco fisicamente. Discordei. Nessa idade CR7 já tinha muitas horas de treino extra em cima e uma aptidão física fora do normal (em determinados parâmetros). O facto de não manifestar, na altura, um cabedal digno de respeito não significaria que não tivesse uma grande capacidade física. O avançado português (assim como atualmente Di María), manifestou desde cedo que em determinados vetores era detentor de fabulosos índices físicos, padrões que muitos atletas com 10 anos de carreira profissional não ostentam.

Passo a explicar: Ter uma boa capacidade física significa também a capacidade de distribuir a força no momento certo.

Os tipos que partem tijolos com as mãos não têm mais força que um porteiro de discoteca ou que um pugilista, no entanto, têm uma capacidade física superior nesse domínio, conseguindo concentrar o máximo de força num único gesto. A capacidade de, num gesto contra natura (como o remate de letra), aplicar no momento certo um grande índice de força. Não é pera doce, muito menos num contexto de jogo, onde tem que se agir rápido, sem tempo para grande preparação físico-mental. Esta perspetiva justificou ter escrito num post anterior que o remate trivela requer uma considerável capacidade física. O que muitos não compreenderam. Ou porque nunca jogaram futebol de 11, nunca experimentaram rematar ou centrar tenso em trivela numa conjuntura hostil (leia-se no terreno de jogo num ambiente de competição) ou porque consideram, porque não compreendiam o conceito, que a força só se manifesta quando é realizada de uma forma mais evidente, mais estridente e visual. Não é por acaso que o ballet é uma das atividades humanas mais exigentes do ponto de vista físico. Exige uma extraordinária capacidade física, quase supra-humana, no entanto quer-se que sejam leves como uma pluma a ágeis com um felino.

Blog

Os 23

A lista dos candidatos à Bola de Ouro 2014 está concluída. Vale o que vale, mas é interessante constatar que desta lista nem todos são claramente conhecidos por tomarem a maioria das vezes a suposta melhor decisão (o que é distinto da melhor decisão como verdade universal), porque não obstante a capacidade de decidir bem ser fundamental no futebol, há um conjunto de outras características que são importantes na hora de graduar um jogador. Diego Costa faz naturalmente parte da lista. Olhando o futebol por um canudo, ficaríamos chocados, analisando o futebol como um todo, tal como vem demonstrando José Mourinho ao longo da sua carreira, só nos podemos regozijar.

Cristiano Ronaldo

Gareth Bale

Karim Benzema

Toni Kroos

Sergio Ramos

James Rodriguez

Mario Gotze

Philipp Lahm

Thomas Muller

Manuel Neuer

Bastian Schweinsteiger

Arjen Robben

Lionel Messi

Andrés Iniesta

Javier Mascherano

Neymar

Diego Costa

Thibaut Courtois

Eden Hazard

Ángel Di María

Yaya Touré

Zlatan Ibrahimovic

Paul Pogba

 

Blog

Boa decisão contra o resto do mundo

Este post surge na sequência da análise e de várias discussões salutares na caixa de comentários do blog Lateral Esquerdo. Partilho aqui, com os meus leitores, algumas ideias essenciais que defendo, trazendo à colação a famigerada “boa decisão”.

Antes disso, aproveito para afirmar que está a nascer uma escola, entre supostos entendidos de futebol, cujo objetivo passa por colocar o item “boa decisão” no pedestal, como se tivessem descoberto a pólvora. Trata-se uma escola errada, perigosa, perversa, e que leva a erros crassos na avaliação de um jogador, permitindo, por exemplo, que se certifique que o Postiga seja colocado no céu e o Diego Costa no inferno. Quando devia ser precisamente o contrário.

Às vezes denoto o erro de muitos comentadores do referido blog ao pretenderem encaixar tudo nas devidas prateleiras, para ficarem descansados e pensarem que percebem de futebol, quando as prateleiras estão todas ligadas entre si. E depois somos obrigados a ler barbaridades que dizem que o Postiga é bom jogador ou que o André Martins é muito melhor que o Adrien Silva. Analisando apenas uma das gavetas, até pode ser, mas na comunicabilidade com as outras, qualquer um daqueles se revela ser um jogador fraco quando comparado com a nata do futebol. Analisar um jogador apenas numa determinada perspetiva leva a um erro de avaliação. Analisar um jogador e louvá-lo apenas tendo em conta a componente “ boa decisão” é não perceber o que é o futebol. É querer transformá-lo num jogo de xadrez quando é muito mais do que isso. E depois não percebem como um determinado jogador, que supostamente devia ser fraco (de acordo com uma análise redutora) é afinal tão requisitado por grandes treinadores e resolvem o dilema assobiando para o ar na esperança que as pessoas se esqueçam que a teoria defendida tem mais buracos que um queijo suíço.

Um jogador tem de ser avaliado num conjunto de competências interligadas entre si. Diego Costa é fraco na decisão? Podemos considerar que sim, só que compensa com outros aspetos que deixa a léguas jogadores que só são bons na decisão. É muito pouco ser-se bom na decisão e esquecer tudo o resto. Eu não quero na minha equipa um jogador que só decida bem, mesmo que isso depois me traga vídeos fabulosos para expor no meu blog. Será dispensado se não evoluir em outros parâmetros.

Defendo que a boa decisão é importante, mas não se deve descurar os atributos técnicos e físicos (do executante e do companheiro), já que que são demasiado cruciais para serem esquecidos.

Sobre a relação dos aspetos técnicos versus atributos físicos, porque parece que há também uma tendência para desprezar a componente física em detrimento da técnica, quiçá porque nos dá um ar mais professoral, recordo o Ronal Koeman. Era tecnicamente evoluído no aspeto do remate, mas sem capacidade física associada a este vertente técnica nunca teria mandado tanto balázio com sucesso para dentro da baliza.

Qual a razão do Cristiano Ronaldo trabalhar tanto a vertente física? Não será apenas uma questão de vaidade. Ele sabe que para potenciar os índices técnicos  e de decisão (seus e dos colegas), estes devem estar suportados em aspetos físicos assombrosos.  Acham que o avançado português aparece tanta vez em posição favorável para marcar porque tem mais sorte do que os outros? Acham que a boa decisão sem bola que manifesta é apenas porque tem uma extraordinária capacidade intelectual de encontrar lugares vazios para receber bola? Analisem a intensidade de CR7 na busca de espaço (sem bola) e tentem imaginar a capacidade física necessária para concretizar tal desiderato.

Falava-se (falei) também na caixa de comentários do referido Blog do Ricardo Quaresma. Já alguém experimentou mandar alguma trivela foguete? Acham que o golo do Lamela é apenas técnica? Experimentem rematar de letra, num gesto técnico perfeito, e verão que a bola saí a uma velocidade ridícula se não suportada por aspetos físicos fora do normal.

Quaresma, por exemplo, que nem é dos meus jogadores preferidos, decide mal, mas compensa muitas vezes isso com outras componentes importantíssimas no jogo. E por vezes essas componentes tornam-no num jogador mais importantes que um jogador que decida quase sempre bem mas em que lhe falte tudo o resto. Conforme defendo, futebol não é xadrez. A “boa decisão” é importante, mas amputar tudo aquilo que a suporta é querer olhar para o mundo através de um canudo. Pior do que isso, é quando esses indivíduos, ainda que de forma tácita, pretendem arrogar-se que sabem mais do que os outros, mesmo perante aqueles que optam por ver todo o panorama e que analisam o futebol como um todo desde os primeiros dias da sua vida.

A boa decisão

No outro dia li um post interessante no Domínio Táctico sobre a boa decisão de Ronaldo num lance em que se encontrava bem posicionado para marcar, mas decide lateralizar para um companheiro melhor colocado ((Real Madrid versus Athletic Club).

Retirando a sugestiva imagem do referido blog conseguimos perceber melhor o lance em questão.

Blog7

O autor do post referiu na altura que se tratava de uma decisão fácil. Nos comentários discordei, alegando que se tratava de uma decisão difícil.  Na perspetiva de um jogador abrir mão da glória, leia-se golo, gera sempre um conflito intelectual. O ego quer marcar, a solidariedade quer passar a bola, passando com ela toda uma gloria perdida. Quem conhece o género humano sabe que o egoísmo, o pensar em si mesmo, é normalmente um sentimento mais forte que o dar a mão ao próximo ou realizar algo em prol do coletivo. Se os seres humanos fossem robots tinha concordado com o post, no entanto, analisar o futebol esquecendo a natureza intrínseca dos seus praticantes leva ao erro.

Como solucionar este problema? Para mim, passa por educar os jogadores de futebol quando estão nas camadas jovens. Cada clube necessita de um guru, de alguém que conheça como o ser humano funciona, que tenha competências pedagógicas, e que explique aos jovens praticantes porque devem adotar uma solução em detrimento de outra. Não basta dizer “faz assim” (provavelmente no dia seguinte volta a prevaricar), mas explicar o porquê de dever executar de determinada maneira, esclarecendo que o sucesso coletivo traz normalmente mais sucesso a cada um dos elementos que compõem o todo, do que o sucesso obtido por cada um deles individualmente. O jogador, egoísta por natureza, vai entender que ele próprio fica a ganhar mais se optar por uma visão macro (sucesso da equipa) do que continuar a insistir numa visão micro (sucesso individual num determinado jogo).

Passe versus boa decisão

Analisando a segunda parte do jogo França X Portugal, salta à vista o passe de Benzema para o golo de Pogba em contraponto com o passe de Éder para o remate, sem êxito, de Ronaldo. Este lance ajuda a explicar a importância da tomada de decisão, mas principalmente da importância da qualidade do passe e o momento em que ele é executado. Ambos os jogadores decidiram bem (ainda assim, um melhor que o outro), mas apenas um deles manifestou uma boa técnica de passe. Quem executou bem viu a sua equipa marcar (o fim último do futebol). Quem executou mal viu a sua equipa falhar. Haverá oportunidade para falar nas qualidades e nos defeitos do avançado francês (num post futuro), mas o que importa aqui é centrar na máxima pensar bem é importante, executar corretamente é muito mais.

Passemos à análise:

Benzema:

No lance que antecede o golo de Pogba, Benzema viu-se confrontado, pelo menos, perante três opções: rematar/contemporizar/passar.

Rematar: Marcado de perto por Ricardo Carvalho, a hipótese de Benzema ter sucesso (leia-se, marcar golo), seria reduzida. A técnica de remate tampouco lhe valeria de muito, porque rematar naquele espaço exíguo de terreno com um adversário à sua frente estaria potencialmente reduzido ao fracasso.

Contemporizar: Guardar a bola na grande área adversária com vários adversários na sua zona de ação obrigaria Benzema a perder tempo e a virar-se de costas para o objetivo (baliza/golo). Esta solução aumentaria a possibilidade de insucesso (só haveria sucesso se eventualmente ganhasse um penalty perante um erro crasso do adversário), porque contemporizar em zonas de terreno lotadas de adversários normalmente dá falta (tratando-se da grande área esta hipótese desce radicalmente) ou perda da posse da bola. Havendo outra tomada de decisão disponível, que potencia o sucesso, a contemporização perdeu naturalmente a sua razão de ser.

Passar: Benzema, no momento em que tem a bola, tem um colega (Pogba) a vir nas suas costas sem oposição frontal (Pogba está posicionado entre Ricardo Carvalho e Eliseu) e portanto numa situação mais favorável para faturar. Lateralizando a bola com conta, peso e medida, Benzema potenciou as hipóteses do equipa marcar. A forma como o francês colocou a bola (rasteiro e sem imprimir demasiada velocidade à bola) foi meio golo. Pogba, bem posicionado, com tempo para tirar as medidas à baliza, confirmar o posicionamento dos oponentes e focar-se no local e momento onde o seu pé se encontraria com a bola, concretizou o golo.

Éder:

No lance que antecede o falhanço de Ronaldo, Éder viu-se confrontado, pelo menos, perante três opções: rematar/contemporizar/passar.

Rematar: De costas para a baliza e marcado de perto por Mangala, a hipótese de Éder ter sucesso (leia-se, marcar golo), seria reduzida. A técnica de remate tampouco lhe valeria tal como explicado anteriormente (com a agravante de estar de costas para a baliza e da bola vir pelo ar).

Contemporizar: Guardar a bola na grande área adversária com vários adversários na sua zona de ação obrigaria Éder a perder tempo. Esta solução aumentaria a possibilidade de insucesso pelas razões já explicadas. Havendo outra tomada de decisão disponível, que potencia o sucesso, a contemporização perdeu naturalmente a sua razão de ser.

Passar: Éder, no momento em que recebe a bola, tem um colega (Ronaldo) a vir do seu lado direito, de frente para a baliza, com menor oposição (porque o adversário direto estava mais longe) e com maior ângulo para rematar e portanto numa situação mais favorável para faturar. Lateralizando a bola com conta, peso e medida, Éder potenciaria as hipóteses da equipa marcar. A forma como o português colocou a bola aos trambolhões (em balão) e demorou em decidir (não devia ter deixado a bola bater no chão) agravou as hipóteses de golo. Ronaldo, bem posicionado (não tão bem posicionado como Pogba e não tão bem posicionado se o Éder tivesse colocado de pronto a bola), com tempo suficiente para tirar as medidas à baliza, confirmar o posicionamento dos oponentes e focar-se no local e momento onde o seu pé vai bater a bola (tarefa mais difícil para o português porque quando a bola vem numa trajetória pouco linear e pelo ar, o cérebro humano tem que fazer mais cálculos para decifrar o local e o momento exato em que  o remate se dá) falhou o golo. Boa tomada de decisão de Éder ainda assim mas péssima execução técnica de passe (a forma como este faz o passe com a bola a saltitar à sua frente é nitidamente inferior ao que o francês fez perante a mesma problemática).

Para sermos justos importa referir que, por um lado, Éder  tinha uma tarefa um pouco mais difícil porque o passe veio pelo ar enquanto o francês recebeu a bola pelo chão, mas por outro, tinha confronto visual com recetor do passe, enquanto o francês não. De qualquer maneira Éder nunca deveria ter deixado a bola bater à sua frente, mas atacá-la de imediato e colocá-la pelo chão para Ronaldo rematar. Não custa acreditar se no lugar do Éder tivéssemos um Benzema, Ronaldo provavelmente teria sido alvo de uma melhor assistência e teria marcado. Isto ajuda a explicar porque Ronaldo marca muito mais no Real Madrid que ao serviço da Seleção.

 

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