La Stratégie

by Alexander Sweden

Categoria: Conceitos fundamentais

A Acrópole dos aspetos decisórios

Muito se tem escrito e falado sobre a decisão com bola, denoto, no entanto, que há um erro estrutural sempre que se aborda esta questão, porquanto é tratada apenas e tão só na perspetiva do portador do esférico e sem se ter em conta as suas características e capacidades.

Passo a explicar. Compete a um jogador de futebol que tem a posse da bola decidir bem, ou seja, contribuir, da melhor forma possível, para o sucesso da equipa (leia-se, marcar golos, ganhar), no entanto, para que este desiderato seja possível de alcançar é necessário que saiba olhar para si mesmo e para os colegas passíveis de receber o passe. Por outras palavras, é necessário que o portador da bola decida tendo em conta as suas próprias virtudes e defeitos, assim como, as dos eventuais recetores. Esta realidade justifica a importância do treino, porque será através dele que cada jogador de futebol se vai conhecendo a si mesmo e vai conhecendo os respetivos colegas de equipa. Ainda por outras palavras, a decisão com bola é refém das características do portador e dos seus potenciais recetores. Se o portador da bola se encontra em boa posição para marcar golo mas existe outro colega melhor posicionado, importa, antes da decisão, que tenha noção das probabilidades de sucesso entre ser ele finalizar (e para isso cada jogador deve estar ciente das suas próprias capacidades) ou optar por passar a bola para o jogador que se encontra melhor colocado (e para isso cada jogador deve estar ciente das capacidades dos colegas).

Tenho visto pela blosgfera que a melhor decisão com bola é indiferente à capacidade do portador da bola,  e principalmente das qualidades e virtudes do eventual recetor daquela, no entanto é redutor pensar-se que a melhor decisão é sempre a mesma independentemente dos protagonistas. Em primeiro lugar a melhor decisão será aquela, entre todas as que podem ser concretizadas pelo portador da bola, a que mais aproxima a equipa do sucesso (Messi tem um maior leque de boas decisões fruto das suas capacidades técnicas e físicas que, por exemplo, João Pereira); em segundo lugar, deve-se acrescentar a este primeiro paradigma  o seguinte aspeto: a melhor decisão será aquela que melhor se adequa à capacidade dos possíveis recetores da bola. Imaginemos o exemplo de um jogador em posição de finalizar mas que tem dois colegas que estão melhor posicionados e que em termos de colocação no terreno é indiferente a qual deles passar a bola. A quem deve o portador passar? De um ponto de vista redutor é igual, desde que passe a bola a qualquer um deles. Tendo em conta o que aqui se defende o portador da bola deve optar por:

                – Passar a bola ao colega que melhor finalizará  (tendo em conta as características de cada um deles);

            – Ser o portador da bola a finalizar desde que, tendo em conta as suas características e as dos dois colegas, esta seja a decisão que maiores probabilidades apresenta de aproximar a equipa do sucesso.

Este exemplo é extensível não só às situações de finalização como em qualquer outra fase do jogo, daí que não seja raro que algumas vezes o portador da bola opte por passar a um colega em detrimento de outro. Muitas vezes, ainda que de forma inconsciente, determinados jogadores são mais procurados pelos colegas exatamente porque são estes os que melhor probabilidades de sucesso trazem à equipa, ainda que, não poucas vezes, nos pareça nonsense a opção por parte do portador da bola.

Dito isto, a melhor decisão não é aquela que teimamos em gizar em quadros demonstrativos, onde invariavelmente traçamos a melhor decisão independentemente do contexto, outrossim aquela que, tendo em conta as características do portador da bola e dos possíveis recetores da bola, oferece as maiores probabilidades de sucesso à equipa. Não é estranho, portanto, que fique chocado, sempre que observo na blogosfera que a melhor decisão, a tomar num determinado momento do jogo, seja sempre a mesma, mas que em momento algum se perca tempo a debater as capacidades do portador da bola e o potencial dos possíveis recetores desta.

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Será Rui Vitória um dos apologistas da máxima “futebol é xadrez”?

Rui Vitória assenta que nem uma luva no ditado “saiu pior que a encomenda”. Desejava-se uma suave passagem  de testemunho e a “estrutura” contrata uma antítese do atual técnico leonino. Se um adora jogar por dentro do bloco e prefere centros para a área apenas, ou principalmente, quando fazem sentido (leia-se superioridade numérica da equipa que ataca e/ou aproveitamento das faltas de marcação da equipa que defende), o ex-vimaranense abomina o jogo interior (talvez porque dá mais trabalho e exige mais sabedoria para desenvolver) e ama o jogo exterior, quase nos levando a acreditar que as balizas estão colocadas nas bandeirolas de canto. Se as balizas estão no centro do terreno porque razão se induz a equipa a explorar as zonas mais distantes, para depois lançar a bola através de passes longos (leia-se cruzamentos), os quais têm maior percentagem de erro quando comparados com passes mais curtos, para a zona mais nevrálgica do terreno? Para piorar este cenário os eventuais recetores da bola, no modelo de Rui Vitória, encontram-se invariavelmente em desvantagem numérica e bem marcados. Os defesas adoram este modelo de jogo, já que facilita o jogo defensivo e agradecem.

Ao contrário dos puristas, não considero que o jogo exterior, só por si, seja mau. Se eu tiver dois Davids Beckham na equipa a bombear bolas para dois Mários Jardel, e dois Franks Lampard na boca da área para receber a dita segunda bola, é capaz de não ter de me preocupar muito com o jogo interior, o problema é que o Benfica, nem nenhuma equipa no mundo, dispõe de este tipo de jogadores. Mesmo no mundo real continuo a considerar que é possível ser-se adepto do jogo exterior (ainda assim prefiro mil vezes o jogo interior), mas isso obrigaria à construção de um modelo que garanta uma maior presença na área adversária aquando do bombear de bolas e ter jogadores aptos a jogar neste esquema. Não é preciso ser um génio para perceber isso, basta olhar para a matemática e para a lei das probabilidades, ciências que recusam o êxito de um modelo que se traduz em passar a bola, a uma distância de 25 metros, para a cabecinha ou pé de um colega que se encontra em inferioridade numérica e enfrenta uma defesa minimamente rotinada para tirar espaço.

É  quase como um predador desejar engatar uma miúda e ter um “Date Doctor” (a fazer lembrar Will Smith no Hitch) que lhe diz que a melhor forma de “faturar” não é apanhar o caminho mais perto para a discoteca, mas contornar as redondezas e atirar umas cartas de amor pelo ar na vã esperança que o vento leve uma delas ao destino certo e alguém as leia e fique convencida. Nessa noite, para levar alguém para casa, o predador precisaria de muita sorte e os jogadores no modelo do Rui Vitória dependem igualmente dela.

Agora para os adoradores cegos e para os autores do Lateral Esquerdo, Posse de Bola e Domínio Táctico (que já tinham saudades  minhas):

Talvez Rui Vitória seja um dos profetas da nova escola, advogando que a mente e a decisão são o expoente máximo do futebol. Os requisitos físicos seriam relegados para segundo plano (eu considero que físico e mente são indissociáveis e fundamentais). Por outras palavras, quiçá considere que o futebol está mais próximo do xadrez do que outro desporto qualquer (não obstante ser raro ver um jogador com mais de 35 anos produzir o que produziu no passado, mesmo tendo mais experiência, o que lhe dá vantagem frente aos mais jovens) e isso o induza a considerar que o treino talvez seja o menos importante (tal como já afirmou) porque o que importa principalmente é a mente e esta treina-se com discursos, bonecada e palavreado (o que não é verdade, porque mesmo os aspetos decisórios são desenvolvidos nos treinos e com a bola nos pés). A ser verdade talvez fosse útil questionar a razão do seu antecessor, o mais titulado da história do Benfica, revelar uma predileção por jogadores altos (característica física) e não abdicar de Slimani (bastante inferior ao nível da decisão que Montero).

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Messi versus Barcelona

Palavras de Fabio Capello:

«A conquista do título demonstra a inteligência de Mourinho. Pode até ter estacionado o autocarro em algumas ocasiões, mas venceu. Recordo-me sempre da famosa frase de Giampiero Boniperti: “Ganhar é a única coisa realmente importante”. Mourinho ganha títulos, outros discutem filosofia».

Basicamente é isto que tem proliferado pela internet e pela imprensa, filosofia, vã filosofia. Realidade mais evidente sempre que se fala de Pep Guardiola. Se há treinador que goza de boa imprensa e de boa opinião especializada, independente do que faça, é o catalão e compreende-se porquê: Durante alguns anos de ouro colocou em prática o que muitos filósofos defendem, tornando-se uma espécie de guru sagrado. O problema é que o gizado pelo treinador amado resulta em determinados paradigmas, escolhidos a dedo e dentro de conjunturas incrivelmente agradáveis. Para os acérrimos defensores, o futebol de Pep é plausível de ser concretizado em qualquer equipa, em qualquer campeonato, em qualquer panorama e garante sucesso. Sempre. A realidade tem vindo a encarregar-se de provar o contrário, estando à vista um imenso desafio para o referido treinador: Adaptar-se.

Alguns paladinos, quase roçando o autismo, agarram-se a tudo o que podem para justificar os momentos difíceis de Guardiola. A derrota contra o Barcelona é disso prova. Não se podendo colocar em causa Sua Majestade, importava arranjar rapidamente um bode expiatória que mantivesse imaculado o estilo de jogo da Realeza. Desta vez foi Messi, à próxima será outra coisa qualquer. Li que foi este quem ganhou o jogo. Li ainda que quem não entende isto, não há nada que se possa fazer por pobre alma. Tudo isto me parece incrivelmente arrogante e desonesto do ponto de vista intelectual, tal como o será quando se defende que a estratégia de jogo do Bayern foi acertada, mas que contra Messi a melhor estratégia não resulta!

Perante estes argumentos, quem não conhecesse o fenómeno argentino, julgaria que Messi, quando está em grande forma, ganha sempre. Que o Barcelona, neste contexto, ganha sempre. Que são ficção pura os jogos em que Messi, em grande forma, não impediu os Blaugrana de serem eliminados da Champions, já que o argentino é impossível de travar.

Esta argumentação é igualmente perversa porque leva a crer que quem ganhou o jogo foi Messi e não a equipa. É menosprezar o conjunto e louvar o indivíduo. Por outras palavras, é produzir uma máxima antagónica a tudo aquilo que representa o futebol: um desporto de equipa. Ninguém ganha nada sozinho (nem Maradona no Nápoles). O Barcelona ganhou o jogo porque teve uma melhor estratégia, porque a equipa defendeu bem (se não o tivesse feito e ainda assim os golos de Messi tivessem acontecido, não seriam suficientes para garantir um bom resultado), e porque potenciou, pela forma como jogou em prol do bem comum, a genialidade do pequeno grande jogador.

Transformar a vitória do Barcelona na vitória de Messi é não gostar nem entender o que é o futebol. É ver apenas o futebol numa perspetiva esporádica (esquecendo todos os outros momentos de jogo) e individual (esquecendo o conjunto), quando o futebol deve ser analisado como uma interação de fenómenos, onde todos os jogadores dão o seu contributo e contribuem de alguma forma para o sucesso ou insucesso da equipa. Todos ganham, todos perdem, todos estão no mesmo barco e não adianta negar o inegável só para defendermos o indefensável. Não foi Messi que ganhou o jogo, foi a equipa.

Guardiola está refém do seu modelo, o qual precisa urgentemente de alojar os pés na terra e ajustar-se à realidade. O Barcelona de Pep Guardiola foi um sonho idílico que dificilmente se voltará a repetir nos próximos anos. Foi um regime de exceção que funcionou muito bem com um modelo de jogo também ele de exceção. Caindo o regime, deve com ele cair também o modelo que lhe dava sustento. Não significa passar uma esponja e começar tudo de novo, basta introduzir mais calculismo e menos filosofia, principalmente daquela que os filósofos gostam, mas que, tal com a argumentação cega usada para a defender, corre sérios riscos de se tornar cada vez mais infrutífera. Guardiola pode ganhar em Munique? Seria a melhor coisa que poderia acontecer, este ano, a nível mundial. Bombástico. Se acontecer cá estarei para analisar o jogo e dar os parabéns a quem realmente o merece: não a um jogador, seria um erro crasso, mas à equipa.

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Tenho o conhecimento por isso posso ser pulha?

“Na primeira parte perdemos 45 minutos. Equivoquei-me na escolha do onze”

Palavras de Simeone após a derrota de Vigo (in A Bola online).

A importância destas palavras vão muito para além de um mero autorreconhecimento das suas  limitações enquanto treinador de futebol, antes obriga a pensar o que torna este indivíduo em um dos melhores técnicos do futebol mundial.

No meu dia-a-dia constato demasiados treinadores obcecados em centrarem todos os seus esforços no conhecimento empírico da ciência futebolista, na metodologia de treino, na análise exaustiva de determinadas jogadas, no desvio para lá do racional na tomada de decisão como se esta fosse o alfa e o ómega do futebol (realidade mais vigente em alguns técnicos do futebol sénior amador e de formação), mas demasiado despreocupados com outras competências, porventura excessivamente importantes para serem frequentemente esquecidas.

O que faz de Simeone aquilo que ele é hoje? Um conhecedor da ciência futebolística, um obcecado pela decisão, pelo fixa e passa (que normalmente deslumbra os treinadores habituados a treinar num contexto de futebol mais atabalhoado, usual nas divisões inferiores) ou por um futebol de levar a bola em detrimento do soltar rápido (o que fomenta o reposicionamento da equipa adversária e maximiza as possibilidades do adversário cair em fora de jogo, fator menos importante em campeonatos ajuizados por árbitros de divisões inferiores ou quando protagonizados por jogadores que não têm tempo para treinar os processos defensivos porque as profissões principais a que se dedicam roubam demasiado tempo)? Ou será antes a forma como lidera, como motiva, como se transforma num sábio condutor de homens, não só pelo que sabe, mas principalmente pelo modo como se comporta com os seus semelhantes?

Infelizmente este aspeto tem sido demasiadas vezes esquecido pelas faculdades ou nos estágios, na blogosfera ou na imprensa dita especializada. A realidade, no entanto, demonstra-nos que não basta o conhecimento teórico e prático, ainda que rudimentar em muitos aspetos, se depois, quem o ministra, não assume uma postura condigna, moral e vertical perante todos aqueles com quem o partilha. O jogador dos dias de hoje rapidamente percebe o tipo de líder com quem trabalha frequentemente, e para que o leve a sério importa que o veja como alguém por quem faça sentido dar tudo em campo debaixo de uma fidelidade quase canina.

Indubitavelmente este é um dos truques de Mourinho (mas quando falhou em Madrid isso foi-lhe fatal), e seguramente também o de Simeone. Não basta ter conhecimento, importa que ele seja tido em conta pelos seus destinatários, e tanto mais será quanto mais o emissor da mensagem seja digno de credibilidade. Se se comporta com um rato do cano perante o mundo que o cerca, é natural que tudo o que possa emanar de tal estirpe seja facilmente equacionado e tido em causa.

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As teorias que valem lixo?

Palavas sábias de Benzema:

«Valorizo as críticas quando são feitas por alguém que jogou ao mais alto nível, se vêm de alguém que não jogou futebol não as levo a sério. A única coisa que importa são os golos.»

 (in A Bola online)

Depois de tanta caganeira intelectual que tenho observado ao longo dos últimos meses  em dois ou três blogs, cujos princípios mandavam um treinador para o esgoto em três tempos, é interessante analisar as palavras de Benzema e constatar como elas vêm ao encontro daquilo que é defendido neste blog. Felizmente o francês já percebeu que o futebol profissional não é poesia nem xadrez. É claro como água que um ponta de lança vive dos golos. Tal como referi em momento oportuno (ver aqui): “Porque é impossível que um avançado, face à posição que ocupa no terreno, esteja maioritariamente perante situações em que a melhor decisão é passar a bola em fez de fulminar. Se não fulmina, significa que em muitos lances não é competente porque aborda mal a bola (decisão com bola) ou porque simplesmente não está lá (decisão sem bola). Aquilo que dá ao jogo coletivo dificilmente compensa aquilo que tira à equipa em termos de jogo individual”.

Esta linha de pensamento (vigente no futebol profissional, mas menosprezado em alguma da suposta blogosfera especializada) significa que as assistências fantásticas executadas por parte dos avançados centro não são importantes? Claro que são importantes, mas tal como um agente policial que ajuda velhinhas a  atravessar a estrada não se exime de continuar a proteger os cidadãos, também o ponta de lança não pode deixar sequer de ficar obcecado em marcar golos só porque tem muitas assistências. Se um polícia ajudar muitas velhinhas a atravessar a estrada será que isso lhe dá crédito para que quando presencie um assalto possa ir fumar um cigarro e assobiar para o ar? Basicamente é o que certos paladinos de teorias bonitas, mas que não servem os interesses do futebol de milhões, defendem.

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Diarreia doutrinária ou simples vaidade intelectual?

Palavras de Káká sobre Ronaldo Fenómeno:

«Para mim, o melhor jogador é aquele que consegue pensar e executar de forma incrivelmente rápida e Ronaldo Nazário era o melhor. A velocidade com que ele pensava e executava era perfeita. Ronaldo era realmente espantoso»

 (in A Bola online)

 

Se há parágrafo que resume o que tem sido defendido neste blog ao longo dos meses, este será efetivamente um deles. Só lhe faltava acrescentar a qualidade com que pensava e uma outra componente mental que ninguém fala mas que é crucial (irá ser retomada num futuro post).

Por outras palavras, exige-se a um jogador profissional (ou que almeje a tal) que concilie três ingredientes essenciais: Os mentais (onde se inserem os aspetos decisórios, mas onde há muito mais do que isso); Os físicos (no caso do Fenómeno sobressaía a agilidade enquanto um dos elementos que fazem parte da componente “Capacidade Física”); Os técnicos (no caso do saudoso avançado brasileiro destaca-se o remate).

Não faz sentido num mundo tão competitivo descurar qualquer destes três ingredientes. Perante a falsa doutrina os físicos não são dignos de destaque porque os jogadores supostamente são praticamente todos iguais (tipo soldadinho de chumbo), quando na prática são tão distintos (seja na velocidade, na força ou na agilidade, etc.) e podem fazer a diferença entre ser-se bom ou genial. Conforme já aqui foi escrito, não faz sentido colocar num trono isolado os aspetos decisórios (um elemento dos aspetos mentais) quando estes são tão reféns dos aspetos físicos e técnicos (o que seria de Cristiano Ronaldo e Messi se não fossem fora de série em alguns elementos destes aspetos).

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Pode um “grande” avançado centro não marcar golos?

A resposta é um  categórico NÃO.

Mesmo que o avançado aproxime a sua equipa do sucesso de forma incrível e faça com que toda a gente  à sua volta se torne na pessoa mais feliz do planeta, não marcar golos significa que falha demasiado. Porquê? Porque é impossível que um avançado, face à posição que ocupa no terreno, esteja maioritariamente perante situações em que a melhor decisão é passar a bola em fez de fulminar. Se não fulmina, significa que em muitos lances não é competente porque aborda mal a bola (decisão com bola) ou porque simplesmente não está lá (decisão sem bola). Aquilo que dá ao jogo coletivo dificilmente compensa aquilo que tira à equipa em termos de jogo individual.

Mesmo que o futebol seja magia (e deve sê-lo mais no futebol de formação, que no futebol profissional), recordo o filme “The Prestige“:

“Um truque de mágica é dividido em três momentos. No primeiro momento o mágico mostra algo simples, ordinário. No segundo momento este algo simples é transformado em algo misterioso e nebuloso… No terceiro e último ato ocorre então «O Prestígio»: algo muito impressionante e realmente extraordinário acontece, algo nunca jamais visto”.

Ora, um avançado, a quem compete o ato realmente extraordinário, jamais pode ser considerado “grande” se nunca vai para além dos dois primeiros passos (não obstante estes contribuírem para o sucesso da equipa), tal como um mágico nunca pode ser um “grande” ilusionista se se recusa sempre em concluir o terceiro passo.

Voltando ainda ao tema do Mané.

No que respeita ao passar a bola para o companheiro que se encontra supostamente melhor colocado para finalizar, tenho observado na blogosfera sempre a mesma tónica, a qual passa por considerar que qualquer jogador em lances semelhantes ao do Mané, independentemente do contexto (mesmo que tenha havido um lance exatamente igual há dois minutos atrás com os mesmos protagonistas e com o recetor da bola a mandá-la para as couves)  tem que passar a bola para o colega, seja ele quem for. E não há a mínima hipótese de pensarmos um pouco sobre as poucas vezes em que isso possa não ser verdade nem partilhar alguns pensamentos sobre o tema. Não, temos de assumir uma posição: ou uma coisa, ou outra. Ou preto, ou branco. Não há espaço para o cinzento.

Confunde-se capacidade de passe do Paulo Sousa (e porque não os méritos enquanto treinador) com a capacidade de remate. Parece que não é possível ser-se bom no passe e terrível no remate. E o contrário também vale? Se tenho grande capacidade de remate significa que sou fabuloso ao nível do passe? O Geraldão ou o Heitor do Maritimo deviam jogar a número 10  ou número 6 porque seguramente também eram igualmente brilhantes no passe? Ou a teoria só vale quando dá jeito? Não creio.

Infelizmente, e pode ser falha minha, parece-me que os apologistas do teoria absoluta (porque não admite exceção), nunca se pronunciam sobre as hipóteses do passe falhar. Parece que isso não existe. Não é possível (porque sendo, faria sentido referir isso nas análises). Lá porque fazemos desenhos a traçar o passe que devia ser feito, não se pondera o estado do terreno, os riscos do jogador estar em fora de jogo, ou estar em linha e o juiz auxiliar julgar mal, da bola ser enviada muito para a frente ou muito para trás, demasiado devagar, ou demasiado depressa. Não, qualquer portador da bola que se enquadre numa destas situações assume a perfeição (mas nunca atingirá esse nível se optar pela jogada individual, porque aí passa a ser um calhau com olhos) e portanto na ponderação entre seguir a jogada individual e a jogada coletiva, colocamos o peso todo no lado da balança que gostamos mais. Só vantagens, zero riscos. Qualquer análise feita deste modo não me parece honesta.

Outro aspeto importante que quero realçar é que a referida teoria não introduz nada de novo. Qualquer puto, que já tenha jogado com pedras, ou mochilas, a fazer de baliza, já foi chamado de fuço por não passar a bola em lances semelhantes. Qualquer miúdo de 10 anos sabe que deve passar a bola, pelo que não necessário fazer prints e bonecos para explicar algo tão consensual. A questão inteligente não é bater nessa tecla e fazer-nos a todos regressar aos tempos de rua, mas antes tentar decifrar se aquela verdade universal é assim tão universal. Para mim não é, e foi esse o objetivo inicial do post. Acho importante fazer os meus leitores pensarem, verem as coisas por outro prisma. Para lugares comuns não valia a pena perder o meu tempo nem o vosso. Não é isso que vão encontrar aqui. Para mim vale a pena debater uma questão, ainda que esta apenas se verifique uma vez em cada 100 (a tal história do Ronaldo Fenómeno e do Paulo Sousa).

As jogadas à Mané, ou também recentemente à Bale, são igualmente alvo de grande censura por parte dos adeptos e pelos companheiros de equipa, dos media, dos bloggers, mas como será que atua um treinador profissional nestas situações? Dá-lhe grande alarido, volta à idade média e coloca o prevaricador a treinar 100 vezes o mesmo lance (esquecendo-se que se trata um profissional e não de um puto de 12 anos), faz desenhos para explicar ao jogador como jogar (como se ele não soubesse isso desde a idade infantil) ou trata-o como uma máquina sem sentimentos, sem ter em conta as particularidades (o que o obrigaria a pensar),  que deve agir sempre da mesma forma?

Eu já tinha abordado esta questão num post do dia 12 de outubro de 2014:

“Na perspetiva de um jogador abrir mão da glória, leia-se golo, gera sempre um conflito intelectual. O ego quer marcar, a solidariedade quer passar a bola, passando com ela toda uma gloria perdida. Quem conhece o género humano sabe que o egoísmo, o pensar em si mesmo, é normalmente um sentimento mais forte que o dar a mão ao próximo ou realizar algo em prol do coletivo. Se os seres humanos fossem robots tinha concordado com o post, no entanto, analisar o futebol esquecendo a natureza intrínseca dos seus praticantes leva ao erro.

Como solucionar este problema? Para mim, passa por educar os jogadores de futebol quando estão nas camadas jovens. Cada clube necessita de um guru, de alguém que conheça como o ser humano funciona, que tenha competências pedagógicas, e que explique aos jovens praticantes porque devem adotar uma solução em detrimento de outra. Não basta dizer “faz assim” (provavelmente no dia seguinte volta a prevaricar), mas explicar o porquê de dever executar de determinada maneira, esclarecendo que o sucesso coletivo traz normalmente mais sucesso a cada um dos elementos que compõem o todo, do que o sucesso obtido por cada um deles individualmente. O jogador, egoísta por natureza, vai entender que ele próprio fica a ganhar mais se optar por uma visão macro (sucesso da equipa) do que continuar a insistir numa visão micro (sucesso individual num determinado jogo).”

Ancelotti, por sua vez responde deste modo perante o individualismo de Bale (que não passou a bola por duas vezes para colegas que supostamente estavam melhor colocados para finalizar):

«Vi a jogada e não era fácil passar a bola porque havia pouco espaço. Acho que no fim de contas tomou a melhor decisão, como já o fez tantas vezes».

(retirado do jornal A Bola online)

“Em Valencia, todos pensavam que ele podia ter passado. Ele fez uma ótima partida. Marcou, foi protagonista do primeiro gol. A torcida pediu o passe para o Cristiano, mas os atacantes querem marcar quando estão diante do goleiro. O altruísmo é importante e, se alguém é egoísta, vamos resolver. As pessoas exigem muito dos jogadores importantes e Bale é um deles”.

(retirado do site: http://globoesporte.globo.com/)

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Quando a capacidade de decisão não é suficiente

Ao contrário do que sucede com Diego Costa e Suárez, porque razão Jonas nunca foi merecedor da nata do futebol?

Porque a decisão precisa de ser acompanhada por outros atributos que o jogador do Benfica não possui. No futebol amador (futebol de formação e futebol não profissional sénior) e nos campeonatos mais fracos, quem tem um olho é rei, podendo este importante requisito ser suficiente para fazer alguém brilhar (o que talvez explique a obsessão por este atributo); na nata (leia-se, nos principais clubes da champions league) os aspetos decisórios têm que ser acompanhados por outros parâmetro também importantes, nomeadamente a capacidade física (que não é sinónimo de força), fator essencial para que os excelentes aspetos decisórios assumam um outro paradigma, ou que quando estes não sejam sublimes tal défice seja minimizado, transportando as suas equipas para altos níveis de rendimento.

Jesus ainda não percebeu completamente esta realidade (e as limitações no orçamento também não ajudam), o que justifica o facto da Champions ser o seu calcanhar de Aquiles. Jesus subiu a pulso na carreira, o que é louvável, mas ainda transporta com ele o pensamento vigente nas equipas mais pequenas.

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Ainda o lance do Mané

Retomando o tema do último post (sobre a decisão do Mané), se o jogador do Sporting tem passado a bola (no caso, considero que era a suposta melhor decisão), o colega que a receberia ficaria, em princípio, com a baliza aberta para marcar . Mas a baliza aberta num lance daqueles é sinónimo de golo? Aparentemente sim, mas também depende do contexto (por ex. estado do relvado), das qualidades do adversário (por ex.  mais rápido ou mais lento a recuperar) e de quem recebe a bola (se apresenta dificuldades em acertar na baliza em situações de jogo jogado).

Porque razão tantos jogadores profissionais falham tantos penaltis? Podem-me responder que não obstante a baliza ter 7 metros há um guarda-redes parado em frente. E eu contesto, mas a bola está parada e têm todo o tempo do mundo para escolher para onde a devem enviar. Ainda assim muitos jogadores não conseguem finalizar (alguns mesmo, nem na baliza acertam) ou apresentam fracos índices de concretização (mesmo sabendo que há zonas da baliza que o guarda redes não têm hipóteses de alcançar com as mãos em tempo útil). A mim, esta realidade, não me choca minimamente. Em termos de execução, não é nada de especial, basta escolher um lado e mandar a bola com alguma velocidade, mas vida real, fora das bibliotecas, o jogador sente a pressão, e há muitos que nestas situações lidam muito mal com ela.

No lance do Mané, ou em lances semelhantes, se este tem passado, quem recebe a bola, não só a recebe em movimento (ao contrário do penalty), o que obriga o cérebro a fazer mais cálculos (espaço/tempo), como tem muito menos tempo para pensar e executar do que quando comparado com a marcação do penalty. Como já não há guarda-redes, em termos de execução, não é nada de especial, basta mandar a bola em direção à baliza com alguma velocidade, mas na vida real, fora das bibliotecas, o jogador sente a pressão, e há muitos que nestas situações lidam muito mal com ela.

Eu tenho a certeza que se as grandes penalidades não existissem, haveriam génios que tratariam de assegurar que qualquer jogador profissional naquela circunstancia marcaria golo. O que não é minimamente verdade, como sabemos.

As pessoas têm que compreender que a maioria dos jogadores profissionais, não dominam a bola como se esta pertencesse ao próprio corpo; que muitos não estão minimamente talhados para tarefas ofensivas (como um simples remate à baliza em jogo jogado).

Não podemos esquecer a pressão que um jogador é sujeito quando marca um penalty ou quando finaliza uma jogada em que só tem de rematar em frente; e muitos, não obstante serem tratados como máquinas decisórias, reagem mal perante tamanho jugo. Há que ter isso em conta quando tentamos definir qual a suposta melhor decisão.

Os que fazem prints com desenhos e bonecos a determinar a melhor decisão como verdade irrefutável, que me desculpem, mas a melhor decisão nem sempre é a mesma. O futebol não é assim tão simples. Depende de muitos fatores, que devem ser conjugados e tidos em conta. Se em vez do Mané, fosse o Ronaldo Fenómeno, e quem estivesse em vias de receber a bola fosse o Paulo Sousa, eu diria ao brasileiro para ser ele a concretizar. Para mim, essa seria a suposta melhor decisão: Aquela que tinha maiores probabilidades de ser bem executada e aquela que apresentaria uma maior taxa de contribuição para o sucesso.

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