Benfica, Enzo, os jogos da distrital e os livros

by Alexander Sweden

Leio neste post uma crítica a  Rui Pedro Braz (Autor de alguns livros sobre futebol) que defende que Matic é muito mais difícil de substituir que Enzo porque o Jesus tem agora mais opções do que durante a transferência do jogador sérvio para Londres.  O responsável pelo post contesta a ideia e finaliza o seu primeiro parágrafo da seguinte forma: “Mas isso é o problema de analisar as coisas de forma geral, sem pensar na especificidade de cada caso. Seria isso verdade se a ideia fosse pegar em onze jogadores e os soltar sem qualquer fio em campo. Mas a ideia, e o fio, é o modelo de jogo de Jorge Jesus.”

Não obstante os dois estarem errados (um porque vê o futebol profissional como se treinasse na distrital, o outro porque ainda não percebeu que independentemente dos recursos atuais do plantel benfiquista, é mais fácil de encontrar um bom n.º 8 do que um bom n.º 6), não quero menosprezar todos os que trabalham de forma humilde nas divisões inferiores ou no futebol feminino, até porque a subida a pulso nunca fez mal a ninguém, ou aqueles que perdem o seu tempo a escrever livros sobre um desporto que apaixona multidões.

Deste modo, quero começar por dar dois conselhos a todos aqueles que pretendem dar o salto para o futebol profissional; Primeiro: Não é necessário lamber botas, porque se formos bons será uma questão de tempo até repararem em nós (e o Jesus não é o único treinador que dá empregos e muito menos é o único  cujo modelo de jogo passa pela ideia e pelo fio. No futebol profissional isso é normal). Segundo:  É imperioso fazer um grande esforço para deixarmos de analisar o futebol profissional sob uma perspetiva da distrital. Para ingressar realmente no futebol profissional é obrigatório desmontar  ideias pré-concebidas vigentes no futebol sénior amador, deixar as bibliotecas e reinventarmo-nos perante a nova realidade (uma realidade completamente distinta).

Continuando a leitura do referido  post, onde se pretende alegar que é mais difícil substituir Enzo do que Matic,  lemos o seguinte:

“Focando nos dois médios centro, no modelo de Jesus, um dos médios assume mais as coberturas, e tarefas defensivas de frente para o jogo, por estar na maior parte do tempo atrás da linha da bola, e outro assume mais riscos aparecendo mais vezes à frente da linha da bola. Jogar de frente para o jogo é mais fácil no ataque e na defesa. É mais confortável porque se consegue ler todo o jogo”.

Infelizmente as coisas não são assim tão lineares (nunca são), mas isso é o problema de analisar as coisas de forma geral (leia-se futebol da distrital), sem pensar na especificidade de cada caso  (leia-se futebol da primeira divisão). Na distrital faz sentido ter esta opinião, onde substituir um trinco é normalmente mais fácil do que substituir um número 8. Basta ir à aldeia mais próxima buscar um matulão para destruir jogo, intimidar  e ver o jogo de frente. Na ótica da distrital substituir um jogador destes não dá tantas dores de cabeça, mas descobrir na mesma aldeia um 8  com grande qualidade técnica para jogar mais próximo dos adversários, dentro do bloco e muitas vezes de costas para a baliza e detentor de grande criatividade para ter sucesso nos espaços curtos, pensar e executar rápido é praticamente uma tarefa impossível.

Uma vez que aos olhos de um treinador da distrital substituir um 6 é normalmente mais fácil do que descobrir um novo 8 para titular, o que nos diz o futebol profissional? Aquilo que eu vejo no futebol português é que há mais de meia dúzia de jogadores muito competentes para jogar a 8 e muitos poucos para jogarem a 6. Porque será? E porque razão o Benfica ainda não encontrou um substituto para o Matic ao fim deste tempo todo, que o Porto tampouco o fez relativamente ao Fernando e que Rossell provou que ainda tem de palmilhar muito terreno para um dia substituir o William Carvalho?Algo que inexplicavelmente o post em análise não refere é que um 6 suporta uma maior responsabilidade sobre os seus ombros, pelas funções nevrálgicas que lhe são incumbidas e porque tem muito menor margem para errar, quer em termos posicionais, quer em termos de interceção da bola, do que um 8, sendo natural que aquele se tenha tornado numa pedra preciosa mais rara de encontrar. Há muita gente boa com a bola no pé, que assume mais riscos aparecendo mais vezes à frente da linha da bola, com alta qualidade individual, mas há pouca gente com alta qualidade coletiva, que tenha grande sentido de responsabilidade sobre os terrenos recuados a ocupar e sobre o tempo de entrada à bola e que ainda consegue acrescentar a tudo isto a sabedoria em tratar a bola por tu e iniciar, com competência, a primeira fase de construção.  Não é por acaso que Ancelotti, com resultados excecionais, “desperdiça” dois 8´s de topo mundial no lugar de um habitual número 6. Compreende-se esta opção, porque no futebol profissional é mais fácil encontrar 8’s muito bons do que um 6 realmente competente. Recordando o velho ditado: “Quem não tem cão caça com gato”. Se Jesus fosse flexível como o treinador italiano, poderia aproveitar a deixa para jogar com dois 8’s e esquecer de vez o número 6.  Infelizmente temo que esta dica já chegue demasiado tarde porque obriga a que o modelo já tenha sido completamente interiorizado pelos jogadores para que agora fosse explanado, sem medo, nos jogos a sério.

Poder-me-ão contestar que Jesus também acha que Enzo é mais difícil de substituir do que Matic (Ver aqui). Trata-se principalmente de uma forma inteligente de mentalizar a equipa das dificuldades que se avizinham perante a proximidade pontual do F.C. Porto e de dar um aviso importante à direção sobre a perigosidade desta janela de transferência. Compreendem-se as declarações de Jesus, mas não são claramente para levar à letra, antes devem ser descodificadas, como qualquer declaração de um qualquer treinador que ande pelo futebol profissional.   Não faria sentido Jesus afirmar que a tarefa de substituir Enzo era mais fácil do que qualquer outra que já teve no passado. Seria um tiro no pé. A próxima tarefa é sempre a mais difícil, não só porque é a mais urgente e atual mas também porque ainda desconhecemos como dela nos iremos desenvencilhar.

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